O fim de um hábito lixado

cigarro_apagado

3 de Janeiro de 2006, uma data a recordar e a comemorar todos os anos. Sem anestesias (tirando aquela que levei nesse dia para me retirarem a vesícula), sem reduções, pensos ou complicações. Acordei naquele dia e nunca mais fumei um cigarro que fosse até à data actual. Um grande passo, tendo em conta que tinham sido mais de 15 anos a fumar dois maços por dia. Se foi fácil? Não.

Acordei da operação e o primeiro pensamento foi que me apetecia dar uma passa num cigarro. Três dias enfiado num hospital, a fazer pequenas caminhadas e só pensava num cigarro na sala das visitas. Voltei para casa e garanti que não houvesse por perto um cigarro que fosse. Comprar estava fora de questão. Ao fim de 3 semanas voltei a trabalhar e só via colegas meus de cigarro na boca. Sim, ainda era no tempo em que se fumava em todo o lado, em todas as salas, em todos os momentos, tipo a série “Mad Men”, apenas com a excepção de não se beber um copo sempre que se ia à sala de outro colega. Dei por mim a gritar por tudo e por nada. Dei por mim a babar-me com o cheiro de uma baforada de um cigarro, expelida por alguém que passava por mim na rua. Descobri que a tentação mais difícil de resistir, eram os minutos a seguir ao final de um almoço, em particular, aqueles onde se bebeu um bom tinto, aqueles minutos onde nos colocam um café à frente, onde o cérebro entra em histeria ao associar esse momento com o acto de acender um cigarro, para dar aquela ‘passa’, a qual será, muito provavelmente, a melhor do dia. Estes minutos pareciam horas a passar, sempre a tentar resistir à tentação de pedir um cigarro ao vizinho do lado.

De início, eram muito frequentes estes momentos onde a fraqueza humana era testada até ao limite. Mas a verdade é que se resistisse a esses momentos – sobretudo ao acordar, depois do almoço e depois do jantar – o resto do dia, até se passava bem, sem a cabeça andar a pensar em coisas que não devia. E aos poucos foi-se descobrindo que esses episódios de tentação eram cada vez mais esporádicos e de menor duração. Tão depressa vinha aquele pensamento de se dar uma ‘passa’ num cigarro, como tão depressa já se estava a pensar noutra coisa qualquer.

Já lá vão mais de 5 anos sem nunca mais ter colocado um cigarro na boca. Esse é para mim o ‘segredo da coisa’. Resistir a todas as tentações, nunca cedendo ao aparentemente inofensivo gesto de pedir um cigarro. Hoje fumava-se um, “Ah!, É só hoje que é dia de festa”. Poucos dias depois, provavelmente, pedia-se um cigarro a um amigo, apenas porque se tinha ficado a pensar na boa sensação que o outro tinha causado. E de ‘pecado’ em ‘pecado’, sem se saber como, já se estava de novo a comprar um maço, para não passar a vergonha de estar sempre a cravar quem se visse a fumar. Falo apenas por mim, pois sei que seria isso que me iria acontecer. E será assim que irei sempre pensar. Não é pelo facto de hoje em dia nunca me apetecer um cigarro que eu posso afirmar à boca cheia que nunca mais irei fumar. Suspeito que o bichinho, a vontade, nunca deverá desaparecer. Os benefícios de não fumar devem ter reduzido o bichinho a um tamanho minúsculo e o importante é nunca mais alimentá-lo.

3 de Janeiro de 2006, foi um momento de viragem na minha vida. Se não o tivesse feito, não estaria agora a praticar desporto. Mais pormenores sobre este dia podem ser lidos em “Smoke No Smoke”.

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3 respostas a O fim de um hábito lixado

  1. Jorge Gois diz:

    Ao ler este testemunho recodo-me das fases que passei tambem para largar este vicio. deixei no inicio do ano a 1 janeiro 2008. felizmente até hoje tenho aguentado ( cerca de 4 anos e meio mais dia menos dia) mas os primeiros tempos foram lixados. sem ajudas de nenhum farmaco, apenas agarrado á vontade de mudar de vida e iniciar um novo capitulo sem os cigarros. corria mas faltava pulmão, ás vezes acompanhando uma canção na radio via a falta de ar que tinha e a maldita gosma alojada algures na garganta..impressionante o que se perde da vida qd se fuma.

  2. Carlos Dias diz:

    Boas
    Descobri este excelente blog por acaso, revi-me em várias das situações, já foi fumador, bebia em excesso, e pesava 110 kg, por 3 vezes deixei de fumar e beber e baixei o peso para 75 Kg na primeira vez, 85 na segunda e desde Outubro outra vez para 85kg.
    A única diferença é que já não fumo vai para 16 anos.
    Em 2000 andei nos primeiros 10 a nível Nacional no triatlo, fui treinando até 2003 mas depois foi a descer até à coisa de 7 meses atrás, pensei, estou com 53 anos, 110 kg, tenho o fígado gordo, tomo comprimidos para o colesterol e Omeoprazol todos os dias, pior que tudo, sentia-me com 53 anos, a coisa tinha de mudar, e assim foi.
    Actualmente estou com 86 Kg, de perfeita saúde, não tomo nada de comprimidos, e já fiz o meu primeiro triatlo, espero vir a fazer ainda este ano um de média distância e para o ano um Longo.

    Obrigado Luís, pela motivação que vais dando através dos teus testemunhos.

    • 🙂 Obrigado Carlos. Quando levamos um estilo de vida menos saudável, se não houver um clique ou um aviso, até achamos que podemos continuar assim. Mas uma foto nossa ou umas análises podem ser o suficiente para despertar a vontade de mudar. Um processo que não é fácil e que pode ter vários avanços e recuos. Mas quando mudamos para hábitos de vida mais saudável, é um facto inquestionável que nos sentimos bem e que só temos a ganhar com isso. O curioso nisto é que podiamos ter ficado apenas pela corrida. Mas não, ganhámos o gosto por um desporto onde se tem de treinar a triplicar. Mania de complicar a mudança 🙂
      Força Carlos. Que este 2014 e o 2015 sejam os anos do regresso em força ao triatlo

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