26ª Meia-maratona Seaside, Lisboa

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Uma estreia nesta distância. Aliás, se chegasse ao fim, bateria o meu record pessoal, já que o máximo tinha sido atingido num treino de 19Km. Esta seria também a primeira prova que eu faria na cidade que me viu crescer e onde vivi 23 anos, antes de me mudar para o Algarve. A parte mais difícil, a subida da Av. Almirante Reis, era um local que me estava na memória, por ter percorrido a pé quando ia beber uns copos ao Bairro Alto. Era também um local onde passava vezes sem conta, a caminho de casa na Parada do Alto S. João. O final da prova seria no estádio onde eu fiz a “Benção das Pastas”. Uma corrida com um significado muito especial, onde nem me passava pela cabeça que pudesse faltar à partida.

O percurso: Partida em Santos em direcção a Pedrouços, voltar pela Avenida 24 de Julho, Cais do Sodré, Praça do Comércio, Praça da Figueira, Rua da Palma, Avenida Almirante Reis, Praça do Areeiro, Avenida João XXI, Avenida de Roma, Avenida Estados Unidos da América, Avenida Rio de Janeiro e Estádio 1º de Maio.

Os dias antes da corrida

Um treino de 17Km no Domingo. 2ª Feira com natação. 3ª Feira com séries na pista. 4ª Feira com musculação. e 5ª Feira, um treino de 15km. Estava tudo a correr lindamente, não fosse esse último treino. Corri de manhã os tais 15Km sem qualquer problema, só que, à tarde, comecei a sentir uma dor no lado de fora do joelho esquerdo. Fui pesquisar à Net e pelos sintomas temi que pudesse ser o famoso “joelho de corredor”: «Esta síndrome é caracterizada por dor na região lateral do joelho, e pode acontecer durante ou após a prática de desportos como a corrida. (…) A dor começa a se manifestar durante o treino e torna-se presente, ao longo do tempo, nas actividades diárias, como subir e descer escadas». Grande balde de água fria. Perante esse cenário, o bom-senso deveria ter-me obrigado a pensar seriamente na minha participação nesta corrida. Mas o tal significado especial desta corrida dava cabo que qualquer bom-senso que pudesse surgir. Eu queria ali estar e o querer tem muita força. E quando o bom-senso desaparece, aparece o lado médico que existe em todos nós, neste caso, de grande especialista em ortopedia. Por isso, toca a esfregar aquela zona com Voltaren e aplicar uns emplastros de Flurbiprofeno que estavam lá em casa já nem sei bem porquê. Faria isto durante dois dias e meio, nada de actividade física, como é lógico e, se no Domingo de manhã estivesse bem, iria correr, senão, voltaria para o Algarve em absoluta depressão. Os dias passaram e na manhã de Domingo eu não tinha qualquer queixa naquela zona.

Antes da corrida

Sábado, já em Lisboa, fizémos um reconhecimento do local da partida e da chegada, para ter a certeza que tudo correria bem com a logística. Estudámos a melhor forma de chegar aos locais, de forma a evitar passar por zonas que pudessem ser afectadas pela passagem da corrida. Um diz marcado pelo vento forte, que poderia causar muito desgaste na corrida caso se mantivesse assim.

Mas o Domingo amanheceu sem vento e sem sol. Estava frio, mas nada de especial. Na verdade, estava um dia com condições fantásticas para a prática do atletismo. Melhor era difícil. Pelas 9:15 saímos do hotel e rumámos para Santos, para bem perto da partida da meia-maratona. A essa hora, os da maratona já teriam alguns quilómetros nas pernas. Um parenteses para dizer que Lisboa tem mais encanto a um Domingo de manhã. Fantástico percorrer aquelas ruas e avenidas sem qualquer barafunda de trânsito. Fosse sempre assim.

Cheguei a Santos às 9:30, quando ainda faltava 1h para o início da corrida, com tempo para fazer tudo nas calmas, que é como eu gosto mais. Beijinhos de despedida às fãs, combinar o ponto de encontro na chegada e toca a apreciar o ambiente que antecede uma partida. Fui à carrinha do transporte de roupas para depositar um blusão, pois caso houvesse algum desencontro com o apoio logístico, pelo menos teria uma coisa quente para vestir depois da chegada.

Depois foi fazer trotes para aquecer e dedicar muito tempo a alongar tudo o que devia ser muito bem esticado. Nem sinal da tal dor no joelho. Pelas 10:10, interrompi para ver passar os primeiros corredores da maratona. É fantástico. A velocidade com que correm 42Km é muito superior à minha quando faço séries. Por fim, ir para o meio da molhada, nem muito à frente, nem muito atrás. No meio.

O equipamento

Ténis: os que estão na foto. Calças justas de corsário: a opção que escolho para tempo fresco, sem estar muito frio e vento. Uma camisola Adidas Techfit Compression Long Sleeve (depois falarei melhor disto num post): de camada base. Uma camisola de corrida, de manga curta da Sport Zone, onde ia afixado o dorsal. Óculos escuros. Leitor de mp3. Cinto para garrafa (depois falarei melhor disto num post): para levar o BI, 20€, telemóvel e dois gel.

Homem prevenido vale sempre por dois. Com 20€ já se apanhava um táxi. Com telemóvel tem-se acesso ao mundo. E o BI … bem, talvez seja uma paranóia de recear que me possa dar alguma coisinha má e não querer ir parar a uma urgência com a classificação de “John Doe”.

A gestão da corrida

meia maratona ritmo kmInício a tentar encontrar o ritmo certo. Ou melhor, a tentar encontrar um conjunto de corredores que seguissem ao ritmo que eu pretendia correr. Não entrar em euforias ou ritmos impossíveis de manter, que depois só produzem estragos. Os primeiros 4Km foram com ritmos de 5:52 para 4:42 e pulsações a rondar os 158bpm. Esse é sempre o meu receio, que as pulsações entrem demasiado depressa em patamares indesejados, que depois obriguem a abrandar demasiado o ritmo para conseguir estabilizar.

A partir dos 5Km houve um aumento de ritmo. As pulsações subiram para os 162bpm e estabilizaram nessa zona. Dessa forma decidi continuar a apostar nesse ritmo, mas sempre a monitorizar se conseguia evitar a subida exagerada das pulsações. Pois bem, tirando poucas ocasiões em que tive de abrandar ligeiramente para estabilizar as pulsações, a verdade é que, para enorme espanto meu, consegui manter esse ritmo por mais cerca de 12Km. Aqueles que eu segui as pisadas durante muitos quilómetros, começavam agora a ficar para trás. Estava estupefacto com o meu desempenho. Dei por mim a ultrapassar muitos, o que contrariava as minhas expectativas, pois julgava que nessa fase seria eu a ficar para trás. Pelo menos foi isso que sucedeu nas “X Milhas do Guadiana”, onde a seguir à ponte sobre o Guadiana, comecei a ver muitos a avançar mais depressa e eu a ser incapaz de os acompanhar. 

A partir dos 16Km veio então a ‘temível’ Av. Almirante Reis. Estava bem. Aliás, sentia-me mesmo bem. Como seria previsível, o ritmo baixou mas consegui mantê-lo na ordem dos 5:42 com pulsações a fixarem-se nos 167bpm. Mesmo a subir e já com 15Km nas pernas, eu estava num ritmo muito superior ao que tinha feito na prova das X Milhas, cerca de 2 meses antes. Dei por mim a correr com frescura e a ultrapassar muita gente que estava a sentir nas pernas o efeito da subida. Não me canso de repetir para todos os que leiam isto e que estão agora a começar a correr: “os treinos regulares e equilibrados fazem toda a diferença”.

Nesta altura eu reparei que seria possível fazer esta prova abaixo das 2h, algo que eu julgava impossível na semana anterior. Isso e o facto de saber que tinha a família à espera junto à meta, deu-me uma força que me fez correr os 2 últimos quilómetros num ritmo ‘alucinante’ para aquela prova. Ainda estou para perceber como fiz 4:51 no último Km. Nesta fase da corrida, as pulsações tinham passado para plano secundário, já que era impossível mantê-las abaixo da linha vermelha. Dos 167 subi para 175 e cheguei aos 180bpm na volta dentro do estádio.

Os abastecimentos

Em relação ao auto-abastecimento, estabelecia esta estratégia. Perto dos 5km, junto ao primeiro abastecimento, ingerir um gel Actifood da Isostar, para manter aquilo que faço habitualmente nos treinos longos. Depois, aos 15km, logo a seguir ao Terreiro do Paço, ingerir um gel Total Performance da Isostar, com o objectivo de ganhar energia para a subida que se aproximava.

Em relação aos abastecimentos da prova, aceitei uma garrafa de água em cada posto por onde passei. Desta vez, como ia com um cinto, tinha a possibilidade de guardar a garrafa à cintura, o que permitia manter as mão livres. Um posto teria bebida isotónica, só que esta era fornecida em copos de plástico. Eu gosto de ir bebendo aos poucos e não gosto da ideia de ter de abrir a goela para emborcar tudo de uma vez. Percebo que possam fazer assim por ser mais económico para a organização da corrida, mas eu acho pouco prático.

Maravilha das maravilhas: gomos de laranja. Caraças! É divinal. Uma pessoa está cansada, morde aquilo, sente o sumo a escorrer garganta abaixo e fica logo arrebitada. Naquele momento achei que tinha saboreado a melhor laranja do mundo.

O azar a bater à porta

Não. Esta corrida não foi só maravilhas. É verdade que aqueci e comecei a correr sem qualquer sinal da tal dor no joelho. Só que, a partir dos 5Km ela começou a dar sinais e foi aumentando de intensidade. A minha preocupação era ver onde pisava e tentar correr sempre no lado mais inclinado da estrada, de forma a que o peso ficasse mais aplicado sobre a perna direita e não massacrasse tanto o joelho esquerdo. Não foi fácil. A partir dos 10Km temi que a dor aumentasse de intensidade e eu fosse obrigado a desistir. Felizmente que se manteve estável e eu lá fui correndo. Descobri que o Terreiro do Paço está agora revestido com paralelipípedos, o que é ‘óptimo’ para correr. Adiante.

Parece incrível, mas não me lembro de pensar no joelho na subida da Av. Almirante Reis. Nem aí, nem no último quilómetro onde dei tudo o que tinha. Mas mal terminei a prova e arrefeci um bocado, ui! lembrei-me dele … e bem. Estava a ver que precisava pedir umas muletas para sair dali. Grande desgraça. Foi aí que tive a noção que o joelho tinha ficado muito mal tratado. Fiz um tempo fantástico para as minhas expectativas, mas terei conseguido arranjar maneira de ser obrigado a parar durante uns tempos. Amanhã já tenho consulta no ortopedista. Vamos lá ver.

O Garmin passou-se

Não sei o que terá causado isso, mas assim que comecei a subir a Av. Almirante Reis, o Garmin deixou de medir correctamente a velocidade. Continuava a medir os batimentos cardíacos, a distância, o tempo, mas media mal a velocidade. O valor começava a reduzir, como se eu estivesse a parar e o Garmin fazia a paragem automática da medição pelo facto da velocidade estar abaixo do valor pré-definido. A seguir dizia que estava a reiniciar e assim se manteve até ao final da prova. Espero sinceramente que não seja um defeito que precise de arranjo. Uma pessoa habitua-se ao Garmin e depois já não quer outra coisa.

Pontos negativos

Além daqueles que João Lima bem refere no último parágrafo deste texto, eu somaria mais dois. Na zona da partida da meia-maratona eu contei 4 casas de banho (creio). Tendo em conta que foram mais de 1500 a correr, fora aqueles que estariam ali por causa da estafeta, parece-me que era um número insuficiente para fazer face a todas as necessidades. A poucos minutos da partida reparei que ainda havia uma longa fila de espera, por isso, não creio que todos tenham conseguido aliviar-se antes de começar a correr. Uma falha grave para um evento desta dimensão.

Outra questão prende-se com o trânsito nas ruas transversais à Av. Almirante Reis. Não sei qual foi a divulgação deste evento, mas fiquei com a ideia que muitos foram apanhados desprevenidos. Haviam longas filas de carros parados, à espera de uma ‘aberta’ nos corredores para atravessarem. Ora, com muitos milhares de corredores a passar ali de forma quase compacta, é difícil que surja uma aberta. E assim, essas pessoas, em vez de estarem fora dos carros a aplaudir quem passava a correr, ficavam dentro dos mesmos a apitar. Como se isso valesse de alguma coisa. Parvoíce. Questiono se numa maratona como a de Munique, onde isto sucede: «muita muita gente a apoiar em todo o lado nas ruas, à porta das suas casas, com campainhas, tambores e tudo o que tinham para fazer barulho, com pórticos onde a organização passava música (grandes selecções musicais), bandas de todos os géneros», se também há gente dentro dos carros a apitar, apenas desejosa de seguir o seu caminho.

Em resumo

No dia em que fazia anos de casado, esta conquista foi totalmente dedicada a quem me tem sempre apoiado e permitido que eu consiga fazer treinos a horas ‘decentes’.

Concluí a prova na posição 967 em relação aos 1515 que cruzaram a meta (352º dos 511 do meu escalão)

A prova no Garmin Connect, com o tal problema já referido no registo da velocidade na ponta final da prova. Nos gráficos também é possível ver que a contabilização dos tempos não está correcta.

Um joelho lixado e a esperança de rapidamente por voltar aos treinos para continuar a participar neste tipo de provas. Depois de se fazer uma, já não se quer outra coisa.

Run Forrest, Run

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10 respostas a 26ª Meia-maratona Seaside, Lisboa

  1. João Lima diz:

    Impressionante, caro amigo!
    Para quem começou há tão pouco tempo, fazer uma Meia de estreia com esta qualidade, é fantástico!
    Muitos parabéns!

    • Obrigado João. Mas agora fica a dúvida: com uma evolução tão rápida desde Agosto, onde comecei a correr com mais intensidade, resta saber se esta lesão não será o resultado dessa evolução, talvez demasiado rápida.
      A verdade é que ainda ontem fiz aquela prova e hoje, ao passar perto da pista de atletismo de Faro, até senti vontade de ir dar uma corridinha para descontrair 🙂

  2. Muitos parabéns. Grande prova. Para ambos ehe. Podes ler o meu relato aqui: http://lxloop.blogspot.com/2011/12/15953.html

    Corremos vários km perto um do outro e as nossas histórias, até certo ponto, são paralelas. Claro que só podia culminar com o nosso cumprimento no final. Vemo-nos por aí.

    Abraço.

  3. Pingback: Lesões (I) | Ma Ke Jeto, Mosso on Sports

  4. Descobri ontem um link muito interessante.

    Escolhendo aqui http://www.myvideofinish.com/web/index.php?option=com_content&view=article&id=116%3Amaraton-de-lisboa-2011&catid=45&Itemid=69&lang=pt um resultado final de um atleta da maratona compatível com o nosso tempo final da meia, ficamos com uma boa recordação vídeo da prova.

    • 🙂 Luis, muito obrigado. Eu já tinha andado a rondar esse link, mas não via o botão que permitia ver o vídeo para cada atleta. Já lá fui e já vi, vezes sem conta, o momento de cortar a meta 🙂 Obrigado

  5. Ganfas diz:

    Boas Luís, só agora tive oportunidade de ler o teu relato. Parabéns pela excelente prova, fico contente por teres cumprido o objectivo e que a tua estreia na meia tenha corrido tão bem, com a excepção da lesão no joelho 😦 foi pena não te ter encontrado por lá para conversarmos um bocado.

    Espero que melhores rapidamente.

    Abraço

    • Obrigado Ganfas. No início da corrida, achei que seria ‘fácil’ encontrar caras conhecidas aqui dos blogues, mas aos poucos fui tendo a noção que eram muitos os que iam partir para correr e que a probabilidade de encontrar alguém seria pequena. No entanto, à chegada, onde eu julgava ser mais improvável encontrar alguém, fosse pela confusão ou pelo facto previsível das pessoas começarem logo a abandonar o estádio, foi onde me cruzei com o Luís, do blogue “LX Loop” e com o Paulo Pires, do “Runbook de um gajo que mudou de vida“.
      Correu bem, superou as expectativas – ainda hoje me interrogo como consegui fazer aquilo – mas lixei um joelho. Talvez (?) tenha sido demasiado esforço nos treinos em tão pouco tempo. Exigi demais e agora estou sem correr, para enorme pena minha. Vamos láver. Esta semana vou tentar fazer uma pequena corrida no ginásio e perceber se isto se aguenta para distâncias maiores ou se vai começar a doer. Se assim for, marco logo a RM para que o joelha seja visto em detalhe e o médico possa avaliar isto melhor.
      Havemos de nos cruzar numa próxima corrida. Financeiramente começa a ser muito difícil ir a Lisboa correr, mas em 2012 ainda conto ir a uma ou mais provas da meia-maratona

  6. Pingback: Eu bem tentei, mas a coisa está lá a chatear-me | Ma Ke Jeto, Mosso on Sports

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