O ‘amigo’ Ibuprofeno

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ibuprofeno: fármaco do grupo dos anti-inflamatórios não esteróides (AINE) sendo também analgésico e antipirético, utilizado frequentemente para o alívio sintomático da dor de cabeça (cefaleia), dor dentária, dor muscular (mialgia), moléstias da menstruação (dismenorreia), febre e dor pós-cirúrgica. Também é usado para tratar quadros inflamatórios, como os que apresentam-se em artrites, artrite reumatóide (AR) e artrite gotosa. O seu nome vem das iniciais do ácido iso-butil-propinóico-fenólico.

Uma vez, numa ronda pelos blogues que falam sobretudo de corrida, estava a ler um post que falava sobre um treino longo, aí de uns 30Km. A pessoa dizia que tinha tomado um gel aos 5Km, um cubo de marmelada aos 10Km, etc, e, se não estou em erro, um Brufen aos 20Km. Perdão!? Um Brufen? Bem, eu sou dos que recorrem ao Brufen quando tenho dor de cabeça, já que o Paracetamol ou o Ácido Acetilsalicílico, no meu caso, não conseguem ser eficazes. Um parênteses – no tempo em que fumava, era sedentário e andava já perto dos 100Kg, tinha dores de cabeça com muita frequência, diria, pelo menos uma vez por semana. Mas a partir do momento em que deixei de fumar e sobretudo, quando comecei a fazer exercício com regularidade e emagreci, os ditos episódios de cefaleia passaram a ser muito mais esporádicos, nem chegando a uma vez por mês. Mais uma vantagem de adquirir um estilo de vida saudável – fim do parênteses. A dor de cabeça passa com o Brufen, mas esqueço nesse dia todos os treinos que pudesse ter agendado. Porquê? Porque julgo não fazer sentido ir treinar anestesiado. Como é que se ouvem os sinais do corpo se antes do esforço físico ingerimos um comprimido que anula a emissão desses sinais? Para mim, na minha modesta opinião, isto é caminho certo para uma lesão grave.

Incluir Brufen nos treinos ou mesmo competições, poderá ser também uma mistura explosiva, já que pode ler-se isto na bula do medicamento: “Os medicamentos tais como Brufen podem estar associados a um pequeno aumento do risco de ataque cardíaco (enfarte do miocárdio) ou Acidente Vascular Cerebral (AVC). O risco é maior com doses mais elevadas e em tratamentos prolongados […] Edema, hipertensão arterial, e insuficiência cardíaca, têm sido notificados em associação ao tratamento com AINE.” Fala-se ali em «tratamentos prolongados» e a questão é a toma de Brufen antes das grandes competições parece ser algo bastante comum, sobretudo com o objectivo de ‘prevenir’ a inflamação dos músculos.

Eu não inventei isto. Há estudos que o confirmam. Por exemplo, um estudo publicado pelo British Journal of Sports Medicine, que reuniu inquéritos feitos a 327 participantes na edição de 2008 do Ironman Thriathlon no Brasil (de um total de 1250 participantes), indicava que cerca de 60% dos atletas teria tomado AINE, p.e. o Brufen, em algum momento dos 3 meses que antecederam a prova. Metade confirmou a toma de AINE durante o desenrolar da prova. Outro estudo indicava que 13% dos participantes da edição de 2002 da maratona da Nova Zelândia teriam tomado AINE nas 24h antes da corrida. Segundo o diretor do departamento de investigação em fisioterapia da universidade de Indiana, USA, para muitos atletas, a toma de analgésicos tornou-se um ritual, quase como se fosse uma vitamina.

Qual a explicação disto? A principal razão referida no tal estudo realizado na edição de 2008 do Ironman no Brasil foi a “prevenção da dor”. Ou seja, tomavam AINE para suportar a dor e o desconforto da corrida, bem como para prevenir o estado de fadiga total depois da prova. A questão é que os mais recentes estudos sobre os efeitos fisiológicos do ibuprofeno e outros anti-inflamatórios não esteroides sugerem que estas drogas podem ter o efeito contrário ao desejado. Nos inquéritos efetuados no final das provas, constatou-se que após as corridas longas, os que tinham tomado AINE ou similares, sentiam as pernas tão doridas como aqueles que não tinham tomado qualquer tipo de analgésico. Além disso, em experiências com tecidos de cobaias, os AINE diminuíam a cicatrização de músculos lesionados, tendões, ligamentos e ossos, já que os AINE atuam inibindo a produção de prostaglandinas, substâncias que estão envolvidas no processo da dor e também, na criação de colagénio, uma proteína que tem entre várias funções, unir e fortalecer o tecidos. Ou seja, o uso contínuo de AINE para prevenir a dor, a inflamação dos músculos e a fadiga, acabará por aumentar a probabilidade de se ter uma lesão ou ficar ainda mais dorido, por se reduzir a ação dos elementos que têm como principal função reparar ‘fendas e buracos’.

Segundo os especialistas, quando será então justificado o uso de ibuprofeno ou outros anti-inflamatórios analgésicos? Quando efetivamente existe uma inflamação e dor de uma lesão aguda. Nessa situação, os AINE são muito eficazes. Mas incluí-los no cinto que também leva a garrafa de bebida isotónica e os Gel, ou tomá-los antes de cada prova, será um erro, com consequências que podem ser graves.

Esta questão também bem explicado por aqui: “Así pues, aunque mi opinión personal es que sí ayudan (no tanto por su efecto antiinflamatorio, sino más bien por su efecto analgésico), no me gusta la idea de huir del sufrimiento ni la de intentar reducir el dolor. El dolor y el sufrimiento es parte de lo que hacemos los atletas, a mí nada me satisface más que el poder acabar una competición al límite de la inconsciencia…”

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7 respostas a O ‘amigo’ Ibuprofeno

  1. Realmente é muito bem visto este artigo! O disfarce da dor não é de todo uma boa prática, pois esta serve como um alarme para qualquer coisa que poderá não estar a correr bem ou a ser feita da melhor forma, quem sabe mesmo até prevenir uma lesão mais grave. Tomo suplementos para ganhar uma melhor forma física, mas essencialmente para me ajudarem a recuperar (proteína, aminoácidos, glutamina, magnésio) e também já ouvi muito coisas como “uma aspirina por dia, nem sabe o bem que lhe fazia”… não me convencem. Se o meu corpo me fala, eu dou-lhe ouvidos. Isto é que me faz sentido.

    • José, eu diria que é mesmo fundamental ir ouvindo todos os pequenos ‘alarmes’ que o corpo vai enviando. Conseguir perceber se aquele desconforto no músculo da coxa é algo que vai passar com mais uns Kms ou se é algo que começa a aumentar de intensidade, levantando a dúvida sobre parar um treino ou uma corrida para evitar males maiores. Com o corpo ‘atordoado’ deixam de haver os alarmes, sob risco da dor, quando aparecer, já ser no formato de lesão. Falando em suplementos, já comprei o Magnésio. Psicológico ou não, a verdade é que em apenas 3 dias de toma, sinto melhoras nos músculos das pernas

  2. Lénia diz:

    Desta não sabia eu… abuso de drogas, é o que é! A dor faz parte, não é? Provavelmente, esse pessoal não conhece a expressão: “no pain, no gain”.

    • Lénia, ainda há dias, numa conversa de balneário, ouvi alguém dizer que tomava um antes das corridas. Talvez tenham receio da dor ou achem que assim podem prevenir a lesão ou o cansaço nas pernas, mas, no final, se calhar têm dores muito mais fortes

  3. Admito que já o fiz, não com bruffen mas com voltaren estava lesionado e queria treinar na mesma, então toca a disfarçar a dor. Dois erros num só acto, correr lesionado e agravar o risco de enfarte do miocardio….loucuras irracionais.

    abraço

  4. Pingback: In Vino Veritas | Ma Ke Jeto, Mosso on Sports

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