Conversas e divagações

Donald Miralle Jr 7

Foto de Donald Miralle Jr

Li, não sei onde, que se no final de um treino não tivermos fôlego para conversar, então, não fizemos um treino mas sim uma corrida. Na prática, ao longo de um treino que não seja de séries, devemos ser capazes de conversar com quem vai ao nosso lado. Hoje lembrei-me disto por causa dos últimos treinos de corrida que tenho feito com companhia. Sozinho, ponho os headphones e sou eu que defino o meu ritmo. Acompanhado, a situação é ligeiramente diferente. Os headphones ficam no bolso e, quer se queira quer não, o ritmo passa a ser algo que nem sempre é o ideal para nós. Deverá existir um ritmo médio que seja possível de acompanhar por todos os participantes desse treino. Só que umas vezes vamos mais depressa do que devíamos, apenas para não ficarmos com o ‘peso na consciência’ de podermos estar a ser demasiado lentos para o ritmo normal de quem nos acompanha. Outras vezes temos de abrandar quando notamos que o parceiro da corrida já está demasiado ofegante ou incapaz de fazer conversa. E no meio destas acelerações e travagens vão-se fazendo conversas e divagações engraçadas.

Este treino, feito à volta da cidade de Faro, foi muito bom. De destacar que se trata de um percurso com piso para todos os gostos, pois começamos e terminamos a correr em Tartan, passamos por alcatrão, empedrado, terra batida e relva. Foram 12Km feitos a bom ritmo, ao por-do-sol, onde deu para ir conversando. Entre outras coisas, falámos do que nos motiva a correr. Não estava vento, mas mesmo assim, estava muito frio. Gorro, luvas, e muita determinação era o que nos fazia ultrapassar o frio. Com todo esse frio e enquanto íamos passando ao lado dos carros parados numa longa fila para sair de Faro, veio esta frase: “Olha lá, há uns anos atrás, tu alguma vez serias capaz de pensar que estarias ao final de um dia de Inverno a correr com muito frio? Tu querias era já estar em casa, de preferência, refastelado no sofá. E se estivesses dentro do teu carro, com o ar-condicionado ligado, chamarias malucos a quem visses passar a correr”. Verdade. Exercício físico era coisa que passava ao lado. Mesmo que eventualmente, num acesso de loucura se decidisse por os músculos a trabalhar, certamente nunca seria num dia de muito frio, em pleno Inverno. Pois agora, mesmo com tosse, lá se enfrenta o frio só pelo prazer de correr.

Pois também se falou em tosse, ranho e derivados. Se alguma vez, nesse passado amorfo para o desporto, um de nós, caso tivesse tosse ou ranho, seria capaz de pensar em enfrentar um dia frio apenas com roupa desportiva. Alguma vez!? Só se fossemos malucos. Pois agora, mesmo com condições de saúde menos favoráveis e contrariando todo o bom-senso, uma pessoa vai treinar. Seja porque se está parado há vários dias sem treinar, seja porque não se quer interromper um plano de treinos. A verdade é esta: quando não treinamos ficamos irritados. O treino passou a ser um prazer do qual não queremos estar afastados muito tempo. Um prazer que se sobrepõe à lógica ou às palavras que a mãezinha nos dizia quando éramos pequenos: “Tu nem penses que vais para a rua jogar à bola com essa tosse”. Agora, fazemos o que queremos e insistimos quando não devíamos, coisa que, volta e não volta, nos faz chegar à bronquite e a ter de tomar antibiótico.

Mas falando de “malucos” – salvo seja – e de frio, a verdade é que há muitos “malucos” com grande prazer na corrida, a treinar em condições que são muitas vezes adversas. Entre muitos bons exemplos de loucura saudável, menciono estas “Corridas Noturnas”, todas as noites de 4ª Feira, em Quarteira, esteja o frio que estiver. Ou estas “Corridas Lunares”, na Caparica. Ou este treino “Fim da Europa”, o qual, mesmo que estivesse a nevar, não deixaria de reunir atletas cheios de boa vontade e iniciativa. Você que está a ler isto, sem vontade de se mexer e com ar esbugalhado com esta loucura desportiva, acredite, o que custa é começar. Depois, ganha-se o gosto e já não se quer outra coisa.

O que custa é começar. Pois entre mais umas passadas a bom ritmo e quando de falava “daquela malta que corre como o caraças e que faz tempos fantásticos”, veio à conversa mais um pensamento profundo: “Mas tu já pensaste nos anos que ‘perdeste’, incapaz de fazer qualquer tipo de exercício? Era o tabaco, eram noitadas, eram os exageros alimentares e a pança a aumentar. Imagina tu se nessa altura já tivesses descoberto o prazer que é dado por esta coisa do exercício físico. Agora, mesmo quarentão, estarias certamente com um ritmo enorme nas corridas”. Pois é. O tempo, como se sabe, não volta para trás. Agora pouco vale dizer se isto, se aquilo. O que vale a pena dizer – sobretudo para você que tropeçou neste texto e que se calhar até já está cansado de o ler – é que se ganha muito em apostar no exercício físico para se obter uma vida mais saudável, seja com que idade for. Mais vale tarde que nunca. Os records pessoais e a melhoria de performance é algo que se acaba sempre por conseguir com treinos regulares. Podemos nunca atingir o nível daqueles que sempre treinaram ao longo dos anos enquanto nós só queríamos sopas e descanso, mas conseguiremos sempre ir sempre progredindo em pequenas conquistas.

E com tanta conversa já estávamos a passar junto à Ria Formosa, podendo contemplar um maravilhoso espelho de água ao por-do-sol. Só nós que treinamos sabemos porque não ficamos em casa. São estes pequenos prazeres que … venha daí! Vista roupa desportiva e venha enfrentar o frio. Vai ver que depois terá valido a pena.

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