A Fucking Kidney Stone?

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Caro leitor, imagine que tinha acabado de fazer uma prova de Triatlo, a primeira na sua curta carreira desportiva, que tinha ficado eufórico com o resultado, que tinha ido para um restaurante comemorar, que tinha ido à casa-de-banho para urinar, e que … a imagem era mais ou menos aquela. Digamos não tão avermelhado, não tão Ruby, mas mais acastanhado. Já imaginou? Pois caiu-me tudo ao chão.

Sintomas? Com exceção daquela imagem que mais parecia saída de um filme da saga SAW, ou fetiche de vampiros depravados, algo com o nome ‘Chuva Avermelhada’, não haviam mais sintomas: não tinha qualquer dor e não tinha febre. Quer dizer, depois de ter feito aquilo, fiquei com ardor na ‘ponta da garrafa’. Mas foi só isso. Ai valha-me! Ai minha nossa senhora! O gajo é ligeiramente hipocondríaco e vai ver uma coisa destas? Nesse momento tinha desaparecido da cara o tom de pele adquirido na corrida de 5Km sem boné. Branco e em estado de choque. O que fazer? Costumo dizer que na família o ideal é ter um médico que trabalhe no hospital da zona de residência e um advogado. O primeiro porque nunca sabemos quando podemos ter o azar de ir parar ao pesadelo das urgências. O segundo para resolver todos os restantes problemas burocráticos.

Lembrei-me de telefonar para a Saúde 24 (808 24 24 24): “uma iniciativa do Ministério da Saúde que visa responder às necessidades manifestadas pelos cidadãos em matéria de saúde (…) Triagem, Aconselhamento e Encaminhamento em situação de doença”. Nem mais. Eu queria era falar com alguém que me pudesse dar uma orientação sobre a possível gravidade daquela situação e se teria de ir a correr – salvo seja – para o hospital ou se ainda poderia deliciar-me com um rodízio de pizzas. Já que é para dar o badagaio, ao menos que seja com a barriga cheia. Já bastava o desconforto de não ter tomado banho, estar mal cheiroso e com sal no corpo.

Depois de explicar tudo tim tim por tim tim e de salienta que tinha estado a fazer um triatlo, ou seja, com esforço físico acentuado, disseram-me que em princípio não deveria ser nada de grave e que deveria dirigir-me, no prazo de 12h ao centro de saúde da área de residência. Tudo bem. Pelo menos almoçava. Sim, as pizzas estavam boas, a companhia era excelente, mas a cabecinha é que não parava de pensar no assunto e naquela imagem da garrafa a verter para o copo. Duas horas depois, estava o almoço a terminar, fiz mais uma ida ao WC. Pelo caminho imaginava que aquilo tinha sido um pesadelo e que agora eu iria despejar um líquido amarelo muito claro, quase transparente, resultado da enorme hidratação que tinha estado a fazer com Coca-Cola e água …. hã!? Não! NÃO! … tudo na mesma [suspiro]. Nesse momento só queria que aquele WC tivesse um teletransportador, mesmo que tivesse de pagar 1€ pelo serviço, que me colocasse de imediato no centro de saúde que ficava a 30Km dali.

Chegada ao centro de saúde e mijinha para um copo após indicação do médico venezuelano (?). “Ah! To debes ir ao hospital de Faro para hacer unas análises, si!? Yo voi hacer una carta para tu lebares”. Está bem. Ida para as urgências de Faro. Poderia dedicar milhares de linhas a falar dessas urgências e das urgências em geral, mas não é o momento. Ir às urgências e voltar para casa, é coisa que costuma durar tanto tempo quanto Frodo demorou a ir ao reino de Mordor atirar o anel no vulcão e voltar para a sua Hobbitolândia. Infelizmente não tive tempo de preparar uma mochila com um kit de sobrevivência: 2 livros, óculos, comida, bebida, carregador do telemóvel, papel e caneta para escrever uma Bucket List. Fui de mãos a abanar e sabia que iria ser difícil.

Enfrentei o primeiro guardião do templo da Cura: a senhora administrativa que regista a admissão. Não quis saber da carta do centro de saúde e perguntou o que me levava a estar ali. Processo feito, prova superada e avançar para enfrentar o segundo guardião: a médica da triagem. Não quis saber da carta do centro de saúde e perguntou o que me levava a estar ali. Confirmou que eu não tinha febre e deu-me uma pulseira amarela. Bem, por um lado era bom não ser urgente – laranja, ou pior, vermelho – por outro, era mais um indicador da espera que se aproximava. Fiquei a aguardar na sala de tortura que me chamassem: trata-se de uma sala de espera quadrada, aí 10x10m, com um televisor sintonizado na RTP1, onde se juntam todos os eleitos com pulseiras de várias cores, sobretudo, ou melhor, na esmagadora maioria, amarelas. Os eleitos com pulseira verde, depois do aumento das taxas moderadoras, passaram a ser mais raros naquela sala.

Finalmente fui chamado ao terceiro guardião: a médica espanhola da admissão na urgência. Nessa altura já tinha deitado fora a carta do centro de saúde. “Holla! Que passa?!”. Expliquei-lhe tudo tim tim por tim tim e ela deliberou que me me aplicassem uma análise ao sangue e à urina. Fui então ter com a feiticeira de bata branca que recolhe fluidos dos candidatos para depois levar à apreciação do mago das análises. No WC, ao encher o frasquinho, fiquei um pouco mais aliviado ao ver que a cor amarela tinha voltado a ser predominante, apesar de haver vestígios avermelhados. E pronto, teria que esperar na sala de tortura pelo veredicto do mago das análises, coisa que ‘deveria’ demorar à volta de hora, hora e meia.

Três horas depois, repito, TRÊS HORAS DEPOIS, lá fui chamado à presença da médica espanhola. Três horas entre lamentos, gemidos, choros, gritos e muita tristeza por constatar que o Dr. House é apenas uma série ficcional onde qualquer semelhança com a realidade será mera coincidência. Pior ainda quando vemos os corredores cheios de macas e imaginamos que o Eusébio, de todas as vezes que vai ao hospital da Luz, também possa ficar esquecido num corredor no meio da urgência. Pois que as análises tinham os parâmetros todos normais, com exceção de um que indicava presença de sangue na urina (4 cruzes). Ou seja, na opinião da médica, teria poderia ter sido uma pedra no rim que se soltou com o esforço e que causou o sangramento. Receitou-me antibiótico e disse para estar atendo a qualquer sinal anormal: febre, dores, vómitos, etc. E assim foi. Muito tempo depois lá voltei a casa. No dia seguinte fui de imediato consultar o médico de família que teve a mesma opinião face aos resultados das análises. Para ir vendo a urina no sentido de perceber se fazia depósito ou apresentava vestígios de sangue. Caso isso se verificasse, para voltar à consulta. Senão, para esquecer o assunto e andar para a frente.

Deste artigo:

Hematuria – O sangue na urina pode aparecer por litiase (pedra) preexistente no rim, bacinete ou uréter que traumatiza o urotélio normal, durante o exercício físico, produzindo sangramento que será eliminado com a urina.
Outra causa da hematúria é chamado traumatismo de bexiga em corredores de longa distância ou hematúria dos 10.000 metros.

Esquecer isto? Tá bem abelha. Esta semana estou a descansar – que as duas últimas semanas foram muito intensas – mas da próxima vez que for treinar, é certo que o pensamento irá logo para o primeiro xixi que fizer a seguir ao treino, com figas para que aquela imagem não se repita. O gajo é ligeiramente hipocondríaco … já tinha dito?

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18 respostas a A Fucking Kidney Stone?

  1. Joao rita diz:

    Com o tempo , vai-te passar o hipocondríaco, e tornas-te num ironman!!!!
    http://www.estremoztriatlo.blogspot.pt/

  2. Gosto muito da sua prosa. As melhoras. 🙂

  3. Fernando diz:

    o gajo é divertido… hipocondríaco mas divertido 🙂 eu ia já hoje correr 10km lool só para ver a primeira urina 🙂

    you are a triatleta… one day you will be a ironman… 😉

    Se agradar e gostares… vê 🙂

    • 🙂 Fernando, agrada, gosto e já terei visto esse vídeo umas 3 vezes. De todas as vezes que o fiz fiquei sempre emocionado com os últimos, aqueles que se recusam a desistir até cortar a meta. Depois temos a tal super-mulher que, apesar de estar apenas a 80% da sua capacidade, é capaz de fazer uma corrida demolidora.
      Não vou hoje correr mas talvez o faça amanhã. E depois, faço figas 🙂

  4. João Lima diz:

    Oh amigo… sei bem como pedra nos rins é tão mau!!! (mau no sentido de dores!)

    O meu desejo de melhoras

  5. migtorres diz:

    Também fico todo assustado com estes relatos. Mas pode não ser nada. Lembro-me que isso também aconteceu ao Rui Pena e depois já fez um IM. http://docesdesportivos.blogspot.pt/2010/09/semana-de-308-59.html#links

    • Miguel, agradeço o link. Fui lá comentar e pedir para responder no sentido de eu saber se aquilo foi coisa que mais alguma vez aconteceu, já que aquele relato era de 2010. A imagem era assustadora, mas o resto estava normal: sem dores, sem febre e com as análises normais. Um dos parâmetros da urina, que indica bem o estado do rim, também estava normal.

  6. Rui Pena diz:

    Boas…

    Estou a conhecer o teu blog… e só li este post…

    De facto também aconteceu comigo… e passei por algo semelhante aqui no Hospital de São João no Porto.

    Conheço uma outra pessoa que passou pelo mesmo, em Lisboa, que falou comigo por causa do meu blog…

    No meu caso e no dele, estou convencido que a hematuria teve a ver com treinos longos… ele falou-me que estava numa fase em que fazia muitos treinos longos, tal e qual como aconteceu comigo… sei que na altura li uma série de artigos e cheguei a ter como explicação a capilarização muscular que resulta de treinos longos com intensidade baixa. Depois desse dia nunca mais tive problemas e não deixei de treinar… como disse o Torres, até fiz o meu IM…

    Mais duas notas.
    1. Eu cheguei a fazer uma ecografia aos rins e não encontraram vestígios de pedra sequer… não havia hipótese alguma dessa ser a explicação: não doía nada, não havia vestígios de cristal na urina e a ecografia garantia que eu nao tinha pedra alguma.

    2. Sangue na urina é grave qunado não se vê… normalmente o sangue como o viste, é sinal de traumtismo, provocado pela pedra que se solta… ou, se o traumatismo é ao nível da capilarização que estamos a provocar, é indolor e é um acontecimento isolado.

    PS: é claro que é bom princípio consultarmos médicos e não a internet… mas, neste caso,cheguei à conclusão que os médicos não tiveram em consideração toda a informação… e não sabiam. Nota: também espero que não vejas isto como um diagnóstico… é apenas a partilha da minha experiência.

    Abraço e até um dia destes… num triatlo…

    • Rui, agradeço a tua resposta e a partilha da tua experiência, pois nesta fase é importante ter conhecimento de casos idênticos e da maneira como evoluiram. Sobretudo no teu caso, ter lido que não impediu de conquistar um Ironman 🙂
      Pois de facto aquilo não faz sentido. Nessa última semana eu tinha feito um mini triatlo em VRSA, logo seguido de uma meia maratona, 2 dias de descanso, mais 2 treinos de natação, 1 de corrida e 1 ciclismo até ao dia do sprint de Quarteira. Talvez tenha sido muito esforço para mim nessa semana. Eu não sei se referi, mas no que respeita à hidratação creio ter feito tudo bem: 1/2 hora antes da natação bebi um Powerrade (500ml), quando iniciei o ciclismo tomei um gel e ingeri cerca de 500ml de água durante esse segmento, e finalmente uma garrafa de 333ml de água no início da corrida.
      No hospital não me fizeram ecografia mas disseram-me para falar isso com o médico de família. Na consulta que fiz logo no dia seguinte, o médico que me acompanha há anos, não deu relevo a isso e não me mandou fazer qualquer exame. Mesmo assim talvez isto ainda me leve a um urologista e a pedir um check-up para ter a certeza. Agora, é claro, por mais que tente evitar pensar nisto, a cabeça volta sempre ao mesmo.
      Abraço

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  8. Ganfas diz:

    Bom Dia Luís, à uns tempos li um artigo na Spiridon sobre o problema que tiveste, julgo que estava relacionado com o esforço exercido durante muito tempo logo vou ver se o encontro e meto aqui.

    Abraço

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