As distâncias psicológicas

Donald Miralle Jr 2

Foto de Donald Miralle

O cérebro humano é muito subjetivo a avaliar distâncias, incapaz de apresentar rigor para cenários diferentes. Existem os erros na avaliação da informação que os olhos transmitem, dando-se o exemplo dos elementos físicos da paisagem que parecem estar ‘logo ali’ quando na realidade estão bem longe do observador. Os erros associados ao cansaço físico, que levam o cérebro a exagerar na contabilização da distância percorrida. Ou os erros da chamada «distância psicológica», um conceito abstracto onde uma distância é avaliada em função de diversos conceitos, p.e. afectivos, sociais ou económicos.

Numa cadeira de Planeamento e Urbanismo, pediram-nos para desenhar um mapa de Lisboa em função das distâncias psicológicas, ou seja, distorcendo as medidas reais de acordo com os locais que considerássemos mais perto ou mais longe. Eu vivia na Parada do Alto S. João e para mim, o lado ocidental estava sempre mais perto. Na minha interpretação, as Amoreiras estavam muito mais perto que Chelas ou Xabregas, onde apenas bastava descer a Av. Afonso III para lá chegar. Ir a Vila Franca de Xira seria 5 vezes mais longe do que ir ao Meco. Mais tarde, quando vi morar para o Algarve, foi interessante notar a alteração nas distâncias que se considerava razoável percorrer para efetuar uma determinada ação.  Em Lisboa seria incapaz de assimilar a ideia de entrar num carro e ir sair à noite a Setúbal. Mas no Algarve, o ‘normal’ poderia ser ir de carro até Portimão com passagem no regresso por Albufeira. Falando agora em corridas, felizmente que o Garmin não apresenta resultados de acordo com o que o cérebro transmite ou interpreta.

Tudo isto a propósito de um trajeto que comecei a fazer agora em Olhão, para os treinos de corrida realizados logo a seguir aos de ciclismo. Em função dos objectivos, é um trajeto que permite fazer entre 9Km (verde 5Km + lilás 3.5Km) e 15Km (mais amarelo 6Km) de forma circular.

corrida Olhão 1

Naquela treino, o único ‘problema’ é o trajeto amarelo feito ao longo da EN125. Porquê? Porque é monótono, chato, aborrecido e sem motivos de interesse, a não ser contar os carros de cada cor ou marca. Uma corrida de 6Km (ida e volta) feita em terreno completamente plano, que parece nunca mais ter fim. Psicologicamente, aquela distância de 6Km mais parece ter o dobro. O José Guimarães fala aqui de “8 truques mentais para tornar fáceis as corridas longas”. Pois eu creio que naqueles 6Km já terei experimentado todos esses truques. Em resumo, acho que ando sem pachorra para os trajetos que são uma seca.

Isso leva-me a falar novamente da “22ª Meia Maratona de Lisboa EDP”, que parece ter deixado marca no que respeita à motivação para fazer algo igual. Não em relação a repetir a distância, mas ao trajeto, à monotonia do percurso. Chegar ao Terreiro do Paço e saber que o passo seguinte era enfrentar uma recta interminável até Algés, teve um efeito demolidor. Psicologicamente, aqueles 8Km(?) mais pareceram 20Km. Gostava de continuar a ir a provas de 21Km, mas num trajeto carregado de subidas, descidas, curvas e contracurvas. Difícil de fazer, mas estimulante para os sentidos.

Tinham-me falado bem da meia maratona de Setúbal. Na minha imaginação, eu julguei que fosse algo com partida em Setúbal em direção à Arrábida, com retorno algures na praia de Galápos ou no Portinho. Assim seria uma prova fantástica. Aliás, provavelmente, seria a mais bela meia maratona de Portugal e arredores. Mas não. Infelizmente não é isso que sucede. A partida é feita dentro da cidade e, em vez de se ir em direção às praias, numa estrada junto ao mar, os corredores são enviados em direção a Oriente ao longo de uma interminável recta, para junto da zona industrial. Assim não me convencem a lá ir.

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6 respostas a As distâncias psicológicas

  1. migtorres diz:

    Curiosamente na faculdade também fui convidado a desenhar Lisboa na faculdade numa cadeira de planeamento, não em termos de distâncias mentais, mas sim em termos de leitura que tínhamos da cidade tendo em conta que vivíamos no Porto. Claro que também ficou tudo trocado.
    Quanto a essas distâncias psicológicas, o regresso da maratona do Porto também é avassalador, sobretudo um retorno de pouco mais de um quilómetro. Até já lá fui treinar depois da prova para perder esse medo na próxima. Mas por outro lado, também dá uma dificuldade engraçada à corrida (não é numa zona industrial, é junto ao mar e ao Parque da Cidade).
    Pelo que leio tens que te estrear num trial ou numa prova de BTT. Aí penso não haver nenhum desses problemas.

    • Miguel, este ano ainda me devo ficar pela meia maratona. Mas em 2013, se conseguir ir ao triatlo de Lisboa, então talvez pense numa maratona no final desse ano. Estarei com 45 anos … 🙂 bonita idade para a estreia ou para ter juízo.

  2. “Gostava de continuar a ir a provas de 21Km, mas num trajeto carregado de subidas, descidas, curvas e contracurvas. Difícil de fazer, mas estimulante para os sentidos (…)” – Meu amigo, convido-te para me acompanhares um dia numa prova de trail… garanto-te que não vais esquecer! Alinhas? Deixas-me escolher uma? 😉

  3. Ganfas diz:

    A 1º Meia Maratona que fiz foi a Meia Maratona dos Palácios em 2011 e que, infelizmente, este ano não se realizou.

    É uma prova que tem tudo o que disseste, subidas, descidas, rectas, curvas, não me lembro de ter achado nenhum momento do percurso monótono e apesar de ser uma prova bem dura, achei mais fácil que a Meia Maratona da Ponte Vasco da Gama que fiz uns meses depois.

    Caso esta prova seja novamente realizada para o ano fica aqui já o convite 🙂

    Abraço

    • Ganfas, tinha lido maravilhas dessa prova e entendo a frustração da maioria quando se soube que não iria ser realizada. É importante que existam provas que se distingam das restantes, seja pela dureza ou outra particularidade (por exemplo a beleza da paisagem). Senão parecem todas iguais, com longas e monótonas rectas onde apenas se corre por correr. Tem de haver mais que isso.

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