A última corrida de “Caballo Blanco”

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If I were to be remembered for anything at all, I would want that to be that I am/was authentic. No Mas. Run Free!

Run Free! Talvez a frase que melhor descreve o principal objectivo que Michael Randall Hickman teve na sua vida. Morreu em Março de 2012, com 58 anos, depois de ter saído para fazer mais uma das suas corridas em total liberdade com a natureza. Adotou o nome de “Micah True” (‘Micah’ com origem na Bíblia e ‘True’, o nome de um cão que teve) e ganhou a alcunha de “Caballo Blanco”, dada pelos índios Tarahumara, por causa dos seus longos cabelos loiros.

Micah True era um ultramaratonista, um ser humano capaz de fazer 270Km a correr por semana, apenas porque … sim. Era considerado um espírito livre que perseguia sonhos selvagens, indiferente ao fascínio do dinheiro e posses. Para muitos, ele representava o caminho que dizemos querer fazer mas que nunca fazemos por receio, um caminho mais puro, longe de estatutos profissionais ou sociais, longe do capitalismo, longe do relógio. A sua história de vida ficou imortalizada no best-seller “Born To Run”, escrito por Christopher McDougall, também ele um corredor.

Depois de ter vivido os anos 60 e início dos 70, perfeitamente integrado no espírito Hippie que marcou essa época, tendo sido lutador profissional de boxe para ter algum dinheiro no bolso – uma ocupação no mínimo estranha para alguém que tinha uma alma pacífica – acabou por ir viver para Boulder, no Colorado, na base da encosta leste das Montanhas Rochosas. Passou a fazer mudanças para ganhar algum dinheiro para sobreviver. E foi nessa altura que ganhou uma paixão avassaladora pela corrida. Era um corredor de montanha, preferindo corridas com menos pessoas, em terreno aberto, onde o tempo final era menos importante que a paisagem do percurso. Levantava-se cedo para correr, depois ia fazer uma mudança, almoçava bem, olhava para o seu amigo e companheiro de corridas, Dan Bowers e perguntava-lhe: “Vamos correr mais 10 milhas?”. Era imparável e estava a tornar-se numa referência de topo nas ultramaratonas. Perto dos 40 anos começou a ser vítima de lesões. Em vez de ver isso como uma fatalidade, encarou-as como uma libertação. Deixou de se importar com a acumulação de quilómetros nas pernas e passou a procurar trilhos que fossem cada vez mais desafiadores. Correr era cada vez mais uma missão de exploração, de descoberta de si e do que o rodeava, num processo de enorme felicidade cerebral alimentado a endorfinas. A sua participação em competições passou a ser muito esporádica.

Em 1993 decidiu participar numas das suas corridas favoritas, o “Leadville Trail 100”, um trail de 80Km que se realiza em Leadville, no coração das Montanhas Rochosas (Colorado). A prova tem início a uma altitude de 3100m e entre muito sobe e desce é necessário vencer um pico com 3850m. Na maioria das edições, apenas menos de metade dos corredores é que consegue terminar a prova no limite estabelecido de 30h. O recorde está em 15h:42:00, estabelecido por Matt Carpenter em 2005. Nesse ano, o promotor da corrida inscreveu um punhado de camponeses de Chihuahua, no México. Eram uns tipos pequenos, com ar de avôs, que se apresentaram na partida com umas tangas e umas camisolas largas. O pormenor mais estranho estava nos seus pés. Usavam umas sandálias que eles próprios fabricavam, feitas com borracha de pneus velhos. Quando a corrida começou, esses ‘estranhos seres’ ficaram para trás e mais ninguém os viu durante os primeiros 40 quilómetros. Mais aos poucos foram ganhando terrenos, passando os restantes com enorme facilidade nas mais duras subidas. Dois desses ‘estranhos seres’ terminaram a prova à frente de todos os outros, com um avanço de 1 hora. O vencedor tinha 55 anos. Esses ‘estranhos seres’ eram índios da tribo Tarahumara. Fascinaram Micah True e levaram-no a querer saber tudo sobre eles.

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O pedaço de pano serve apenas para estancar o sangue em feridas que por vezes surgem na corrida

Também conhecidos por Rarámuri – que significa ‘corredores descalços’ ou ‘aqueles que correm rápido’ – ganharam a sua fama pela longas corridas que faziam entre os diversos acampamentos. Durante dois dias a correr eram capazes de cobrir uma distância de 320Km. Seriam super-humanos? Micah True tinha ficado fascinado com estes corredores e quis saber tudo sobre eles. Isso levou-o a construir uma pequena casa, isolada no fundo de um canyon, perto da cidade de Batopilas, onde passou a viver grande parte do tempo. Tal como os Rarámuri, Micah True passou a correr de sandálias, deliciando-se com o simples ato de auto-propulsão, correndo ao longo das trilhas ondulantes, como um caçador neolítico. Ele classificou esse ato de “meditação em movimento” e o seu lema passou a ser “correr livre”.

Durante o tempo que passou a estudar a cultura dos Rarámuri, sem que no entanto se intrometesse junto deles ou que fosse inconveniente com a sua presença, tentou ajudá-los a preservar o seu património. Em 2003, organizou uma corrida de 46 quilômetros, com o objectivo de ser uma celebração festiva da cultura local. Para divulgar a corrida ele andou cheio de entusiasmo de canyon em canyon a distribuir folhetos. Tinha grandes expectativas e esperava grande afluência, porém, no dia da corrida apenas compareceram 7 corredores. Ele correu com eles e terminou em 5º lugar, à frente de dois Rarámuri que se desviaram da corrida para beber umas cervejas oferecidas por um espectador. Não foi o sucesso que esperava, mas era um começo, tornando-se numa ultramaratona anual. Em 2006, Micah True decidiu tornar o projeto mais ambicioso e convidou ultramaratonistas americanos a participar, entre eles constava o nome do lendário Scott Jurek. Mas como organizar uma coisa assim, quando se vivia sem telefone ou eletricidade? Bastou uma ida à cidade de Creel, onde havia um computador com ligação à internet.

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Índios Rarámuri a caminho da ultramaratona de Copper Canyon. Muitos deles demoram vários dias a andar e a correr através de montanhas até chegarem à cidade de Urique para participar na corrida

Entre muitas dificuldades logísticas, apareceram 7 americanos. 7 magníficos corredores dispostos a experimentarem a corrida feita em honra de um povo que devorava quilómetros a correr desde os tempos mais primitivos. Micah True deu a cada um dos seus visitantes o apelido de um espírito animal, p.e., ‘o cervo’, ‘o urso’ ou ‘o jovem lobo’. Num Domingo glorioso uma enchente de pessoas reuniu-se na cidade de Urique, onde a corrida começou e terminou. O vencedor foi um índio Rarámuri chamado Arnulfo Quimare. Seis minutos depois apareceu Scott Jurek. Esta corrida está contada ao pormenor no livro “Born To Run”, onde o seu autor foi um dos 7 americanos que teve o privilégio de estar ali entre os corredores Rarámuri.

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Micah True saiu para fazer uma corrida de de 20Km pelo meio da Floresta Nacional de Gila, no Novo México, mas já não regressou a casa. A autópsia não foi conclusiva sobre a causa da morte. Foi identificada uma cardiomiopatia dilatada idiopática, que teria causado dilatação do ventrículo esquerdo do coração. Porém, Micah True não tinha registos de electrocardiogramas ou de pressão arterial que permitissem avaliar se teria havido alguma alteração física ao longo do tempo. A única certeza que existe é que morreu sozinho no meio da natureza a fazer aquilo que mais amava na vida.

Termino com o conselho que dava a todos os iniciantes na corrida:

“Run easy, light, smoooooth, happy … and run free! Ándale!

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Caballo Blanco’s Last Run: The Micah True Story (artigo)
Micah True’s Journey (fotos)
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2 respostas a A última corrida de “Caballo Blanco”

  1. Eduardo diz:

    Ventríloquo?? Ô lôco, mas que pérola! Será que o coração dele ficou louco? Ou quem sabe começou a falar? É isto! Ele seguiu a voz do coração! Agora captei! Tu és mestre!
    Namastê!

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