Desabafos musculares

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Li algures que haveriam dois tipos  de ciclistas: «os que já caíram e os que ainda vão cair». No mesmo sítio dizia-se que também haveriam dois tipos de triatletas: «os que já se lesionaram e os que estão prestes a lesionar-se». Na verdade, esta última tanto se aplica a quem pratica o triatlo como a qualquer pessoa que pratica desporto. Nem que seja só uma vez e de forma muito discreta, haverá sempre lugar a uma lesão. Nesta onda eu junto dois estados de espírito de quem pratica desporto: «os que julgam que nunca se vão lesionar e os restantes». Os primeiros fazem lembrar o Super Homem, um tipo que se julgava indestrutível. Nem querem saber o que dizem os manuais das boas práticas desportivas. Por algum motivo que os transcende, lesão é coisa que só conhecem de ouvir outros a queixar-se dela. Até ao dia em que tropeçam num bocado de Kryptonite. Ui! Com sorte até podem ter uma coisa ligeira e nunca mais virem a ter problemas. Com azar será algo que se poderá arrastar por semanas ou mesmo meses. Depois desse encontro, é certo e sabido que o seu estado de espírito muda profundamente. Da certeza da invencibilidade passam para a angústia da incerteza. O seu corpo é afinal uma máquina que pode avariar. A mais pequena dor transforma-se logo num foco de preocupação: “Será que devo parar? Será que pode agravar? E se é igual ao que já tive ou que aquele teve?”.

Em Dezembro de 2011 eu fui obrigado a parar umas semanas por causa de uma ‘cena’ no joelho esquerdo. Nesse período não pude participar em algumas provas que se realizaram aqui na zona e nem será preciso dizer o quanto me custou ter de ficar no papel de espectador. O lesionado é geralmente alguém bastante impaciente e com racionalidade inversamente proporcional ao grau de impaciência. Há lesões chatas, que demoram tempo a curar, exigindo ao lesionado que siga meticulosamente o plano de recuperação. A questão é que o lesionado está sempre à espera de uma cura milagrosa, assim tipo aqueles produtos para emagrecer que supostamente produzem efeitos sem qualquer sacrifício ou privação. Há uma prova no final da semana e o lesionado só quer é estar em condições para poder participar nela. Isso leva muitas vezes a que o lesionado perca a racionalidade, a arriscar e a estragar toda a recuperação que estava a ser feita, podendo mesmo agravar o seu estado e a ser obrigado a parar por um período muito superior ao previsto.

Quem ganha o gosto pelo desporto não consegue ficar parado. Sobretudo aqueles que descobriram no desporto a verdadeira fórmula eficaz para perder peso. Uma paragem faz logo pensar em todas aquelas calorias que não vão ser queimadas e que vão começar a causar um indesejável aumento de peso. O equilíbrio que havia entre consumo e gasto energético fica seriamente afectado, surgindo de imediato as recordações daquele-tempo-onde-nunca-mais-queremos-voltar. Para outros é uma questão de forma, tempos e records pessoais: “Logo agora que eu estava a correr a este ritmo e prestes a conseguir bater mais um tempo naquela distância!”

Aquela lesão no joelho acabou por passar. Não pude participar em algumas provas, mas já voltei a correr uma meia-maratona ou até já entrei em provas de triatlo. Essa lesão passou à história, mas deixou marca. Desde então que o joelho esquerdo passou à categoria de peça-mais-sujeita-a-avaria. De vez em quando surge uma dorzinha no lado interior que pode ser coincidente com o que estava escrito no relatório da RM: “imagem de hipersinal envolvendo a maior parte do corno posterior do menisco interno, aspectos em relação com rotura horizontal oblíqua, com aparente solução de continuidade com a superfície articular tibial”. Ou se calhar não tem nada a ver com isso. Eu sei lá, sei lá. O que eu sei é que volta e não volta há ali qualquer coisa que não é normal, o suficiente para ser invadido por todas as dúvidas existenciais do desportista.

Na passada 6ª Feira eu estive na pista a fazer treinos de séries. Corri durante 20 min para aquecer e fiz de seguida 5 voltas de 800m, num ritmo que permitisse fazer essa distância num tempo entre 3:00 e 3:30. Entre cada série fiz 400m a trote para recuperação. Por fim foram mais 10 min de corrida a ritmo lento. Estava a correr tudo lindamente. Nas 5 séries consegui fazer um ritmo perto dos 4:10/Km a que correspondeu os seguintes tempos: 3:22; 3:20; 3:19; 3:19 e 3:17. Impecável. Uma enorme evolução face ao que eu corria em Setembro de 2011. Se isto deixa uma pessoa satisfeita ou eufórica? Deixa. Se alguma coisa faria prever o que sucedeu a seguir? Não. Quando faltavam cerca de 2 min para o treino terminar e quando eu corria ritmo lento, perfeitamente descontraído, eis que sinto uma ‘pontada’ enorme no topo dos gémeos da perna esquerda, um pouco abaixo da parte detrás do joelho. Um esticão, uma guinada como nunca tinha tido. Ainda tentei correr mais uns metros mas voltou a dar a mesma coisa. Pronto! Está tudo lixado. De seguida consegui andar e alongar sem doer. No dia seguinte fui nadar e 2 dias depois fui pedalar. Nesses exercícios, consegui movimentar a perna sem doer. Porém, a ‘coisa’ estava lá. Aquela zona estava dorida, como se tivesse tido uma cãibra. E por vezes, a andar, havia uma ‘impressão’. Certo, certo é que a coisa não estava normal. Longe disso.

Fui ao ortopedista. Ele mexeu, apalpou, revirou, massajou e nada. Não me doía. À partida, estaria afastado o diagnóstico de rotura. Talvez tivesse sido uma contractura. Disse para eu ir correr que, «muito certamente», «muito provavelmente», não iria ter queixas. Mas se tivesse, para voltar à consulta pois aí o caso teria de ser analisado de oura forma. Eu fui correr, mas a ‘coisa’ estava lá. Fui muito devagar, com medo que a cada passada pudesse sentir novamente o tal esticão, mas ainda com maior intensidade. Não senti. Mas senti que o músculo estava dorido. Senti que mal aumentava um pouco o ritmo, a ‘impressão’ aumentava de intensidade. Senti que se continuasse a insistir no ritmo, a coisa iria rebentar de vez. Foi o que eu senti. E por isso corri devagar e lá consegui fazer 8Km sem parar. Correr devagar não é mau e até dá para ir a conversar com o vizinho do lado, que foi o caso na segunda metade do ‘treino’. O problema são duas provas de triatlo Sprint onde eu gostava de estar presente nos próximos dias. A dúvida é saber se consigo correr 5Km e chegar ao fim. Já agora, se consigo correr a um ritmo que se seja, pelo menos, superior a 5:10/Km (que foi o máximo que atingi no último treino até sentir mais queixas na perna).

Também poderia desabafar sobre os curandeiros das lesões, mas deixo isso para outra oportunidade. Por agora apenas saliento que não é fácil a descoberta de um profissional que transmita a maior confiança e nos dê a certeza de ser um profundo conhecedor da matéria. Todos são capazes de indicar um nome e dizer maravilhas dele, mas isso não significa que simpatizemos com a pessoa ou que possamos sentir total confiança no seu trabalho. Quando estas merdas acontecem, um dos dramas é saber a quem recorrer.

A racionalidade diz-me que eu devia era ficar quieto. Só que a irracionalidade do desportista à beira da lesão tem sempre mais força. O que se pensa é que: “Ok, isto não está grande coisa mas em princípio devo conseguir lá ir. Depois logo se vê”.

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11 respostas a Desabafos musculares

  1. Hehehe revi-me completamente no teu texto, um retrato muito fiel e completo de qualquer um que goste de praticar desporto.
    Boa recuperação! 😉

    Abraço

  2. Anónimo diz:

    “hipocondriaquise” à parte…. 😛
    mas o que estás à espera, durante anos o teu corpo foi “preparado” e “modelado” para uma coisa!!! agora apertas com ele de uma forma completamente “anormal”…, é claro que ele se queixe 😉 mas atenção nem todas as “pontadas” são lesões nem todas as lesões dão “pontadas”, uma coisa é certa se está a doer, abranda e mete gelo 🙂
    já agora boa sorte para Peniche, vais gostar…

    • dcaldeirao diz:

      abraço

    • 🙂 Isso é verdade. À vontade 20 anos de puro desperdício de exercício. Sofá, carro e andar o menos possível. Costuma-se dizer: “Quem me dera ter 20 anos e saber o que sei hoje”. Pois eu bem que gostaria de voltar uns anos atrás, a ter o gosto que tenho hoje pelo desporto. Em último caso, nem que vá a Peniche apenas para tirar fotos

  3. Anónimo diz:

    Força e boa recuperação… o pior das lesões é o mau humor que carregamos pelo simples facto de não podermos fazer algo q descobrimos q gostamos muito!!..
    Eu no primeiro dia do plano para a maratona do porto.. lesionei-me.. estou com uma telha …dass…

    Abraço e tudo de bom!

    • Obrigado. Não é fácil gerir o mau humor e a frustração que nos invade nesta situação. Mas também penso assim para aliviar: “pior seria se tivesse estado 4 anos à espera de me estrear nuns JO ou Mundial de Futebol e agora tivesse de ver aquilo através da TV”

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