“não sei porquê tanta comoção. O Kazaquistão já tem oito medalhas e ainda prefiro – de longe – ser portuguesa” (reeditado)

Hoje é a abertura oficial dos Jogos Olímpicos de Londres. Há 4 anos atrás escrevi este desabafo depois da desilusão que chegou a pairar com os Jogos Olímpicos de Pequim. Quatro anos depois, julgo que continua atual e com um pormenor curioso: aquele que foi duramente criticado e gozado pelas suas palavras, está hoje nos 10 melhores do mundo no lançamento do peso. Vejam lá como as coisas são.

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Título (ex)propriado daqui, e que representa aquilo que pretendo dizer.

Felizmente que os Jogos Olímpicos só acontecem de 4 em 4 anos. A primeira noção é que eles não são bons para a economia do país, graças ao investimento que é feito – uns 14 milhões de Euros, que por sinal, nem saem do bolso dos contribuintes, mas das receitas dos jogos da Santa Casa (segundo ouvi dizer). Depois, o sentimento de desilusão que eles provocam é tão elevado, que se corre o risco do país cair numa depressão ainda mais intensa à que já se encontra.

É engraçado como se dá tanta importância aos desaires dos nossos representantes, durante a sua passagem pelos JO, para imediatamente os mesmos caírem num profundo esquecimento generalizado, durante pelo menos mais 4 anos. Num país onde o futebol é Rei e Senhor, com mais tempo de antena do que é dado à política e a outros assuntos de elevado interesse nacional, é de facto engraçado que de 4 em 4 anos os portugueses descubram que têm representantes em modalidades que não são praticadas com chuteiras contra uma bola, sem casos de jogo, sem expulsões, sem violência nas bancadas e sem picardias entre presidentes.

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Mas vamos ao que interessa. Começo por falar da nova Rosa Mota. Ou melhor, da menina de 23 anos que consegue simbolizar de uma só vez a o Joaquim Agostinho, a Rosa Mota, o Carlos Lopes, a Fernanda Ribeiro e o Fernando Mamede (sem chiliques). Vi a sua vitória e fiquei contente, eufórico, tal como a maioria ou totalidade dos portugueses ficou. A Vanessa Fernandes era uma das favoritas à medalha, e não desiludiu. Cumpriu aquilo que se esperava dela e manteve o nível de desempenho a que nos habituou nos últimos anos. Não ganhou o Ouro apenas porque a sua rival de longa data foi melhor.

A Vanessa Fernandes já se encontra num patamar muito elevado, só ao alcance de um punhado de atletas. E no dia em que falhar, porque irá falhar, terá toda a legitimidade para sair de cabeça erguida, por todos os títulos que já conquistou.

Talvez por isso se julgue na legitimidade de opinar sobre o desempenho dos restantes atletas que a acompanharam na comitiva portuguesa, num momento em que ainda existiam diversas provas por realizar. Eu, que gosto muito de a ver competir e vibro com os seus feitos, preferia que ela não tivesse tido essa atitude. Esteve muito mal. Se a Vanessa tivesse falhado e dissesse: “Eh pá, fogo, a água estava fria e eu gosto dela mais quente”, certamente que ninguém iria julgá-la por isso. Já sei, a Vanessa nunca diria uma coisa dessas.

Só que nem todos têm o seu estatuto e nem todos podem falar com a comunicação social, sem antes medirem muito bem as suas palavras.

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Marco Fortes foi o bobo da festa, o palhaço. Apenas porque num momento de frustração decidiu dizer uma palhaçada. Ora, há palhaços e palhaços e de palhaçadas também já andamos todos fartos. Mas não contem comigo para participar no seu apedrejamento. Quem nunca teve maus momentos que atire a primeira pedra.

Marco Fortes falhou os dois primeiros lançamentos e fez a modesta marca de 18.05m, bem longe do seu recorde nacional, de 20.13m. Um recorde, diga-se, que fica longe dos 21.05m do medalha de bronze.

Marco Fortes ficou conhecido pelos piores motivos. Antes das suas afirmações à televisão, quem é que o conhecia? Certamente aqueles que acompanham as provas do Atletismo nacional. E quantos são esses?

As coisas correram da pior forma a Marco Fortes, à semelhança da péssima prestação da Naide Gomes, por sinal, candidata a uma das medalhas. E à semelhança das hecatombes para os EUA nas provas masculinas e femininas dos 4x100m. Em ambas as provas deveriam garantir uma medalha, muito provavelmente a de ouro. Foram eliminados por falharem a última passagem do testemunho. Uma operação que ao longo de 4 anos devem ter treinado centenas (milhares?) de vezes. Uma prova que não admite que se cometa qualquer erro e onde centésimos fazem a diferença. Acontece.

Os apoios de Marco Fortes, um atleta inserido no nível quatro do projecto Pequim2008, do Comité Olímpico de Portugal, referem-se apenas à bolsa do clube. “Dura 11 meses, é apenas daí que vem o dinheiro. Não tenho qualquer patrocínio”. Depois de 5 a 6 horas diárias de treino, dedica-se aos estudos. “Quero ter uma formação para o meu futuro. O desporto não dura sempre.

Se hipoteticamente o Marco Fortes andar a navegar pela Net e cair neste texto, quero que fique a saber que o incentivo. Que ultrapasse este mau resultado e que consiga evoluir na sua carreira como atleta, mesmo com os poucos apoios que possa ter. Sobretudo, que durante os próximos 4 anos demonstrar todo o seu potencial e que nos JO de Londres 2012 esteja presente na final, onde tudo será possível.

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E se Marco Fortes ficou conhecido pelos piores motivos, ao ter feito declarações infelizes para a televisão, o que dizer de toda a divulgação do desporto que é feita pelo canal que deveria efectuar um verdadeiro serviço público? Um canal onde a transmissão de jogos de futebol incluídos na emocionante Liga Sagres, volta a ser uma prioridade?

Numa 4ª Feira à noite, o Guimarães fez o primeiro jogo da eliminatória de apuramento para a Liga dos Campeões. No dia seguinte, como não poderia deixar de ser, o destaque desportivo foi para esse jogo. Nesse mesmo dia, com os JO a decorrer e com alternativas válidas em termos desportivos sobre o futebol, nada foi mostrado sobre uma das provas mais representativas desse grande evento, a final dos 100m Livres da natação. Apenas foi dito que a mesma tinha sido ganha pelo torpedo Francês, um senhor chamado Alain Bernard. Importante mesmo era apenas saber se o Phelps iria ou não ganhar as 8 medalhas de ouro, e ir mostrando resumos dos seus feitos, como se mais nada existisse ao nível da natação. Nesse dia, fomos brindados com imagens da praxe do jogo do Guimarães e com as declarações do seu treinador. Não é isto que interessa em termos de desporto?

A Vanessa Fernandes ganhou uma medalha de prata. Nessa noite, quando o Jornal das 8 arrancou, fomos brindados com as imagens do seu feito, tendo o hino nacional em música de fundo. Foi ridículo. Ela não ganhou a medalha de ouro. Ganhou a de prata. E por esse motivo, os portugueses não ouviram o hino nacional a ser tocado na China. Ponto. Não havia necessidade da RTP ter mostrado um nacionalismo provinciano.

É este tipo de situações que em nada favorecem a divulgação do desporto nacional e dos seus principais intervenientes. Apenas são destacados os principais artistas, apenas é divulgado o desporto-rei nacional, e graças a isso, de 4 em 4 anos, os portugueses julgam-se os maiores conhecedores de tudo o que se passa nível olímpico, capazes de exigirem muitas medalhas, e intolerantes com todos os intervenientes que falharam e dos quais nunca tinham ouvido falar.

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É engraçado constatar que alguns fervorosos apreciadores do desporto-rei nacional sejam, por sua vez, os maiores críticos do desempenho dos atletas nestes JO, e se esqueçam de um pormenor. Nenhum atleta vai aos JO por convite. Todos os atletas, para poderem lá estar presentes, têm de superar os chamados «mínimos olímpicos». Desde que ultrapassem essa ‘prova de acesso’, têm direito a lá estar. E pelo que ouvi, em alguns casos, o nosso Comité Olímpico até estabeleceu «mínimos» superiores aos exigidos pelo Comité Olímpico Internacional.

Eu recordo que nós até temos uma selecção olímpica de futebol, a qual, não conseguiu estar presente nestes JO pelo simples facto de não ter superado as ‘provas de acesso’, que consistiam em conseguir vencer as selecções adversárias. Tão simples quanto isso. Uma selecção constituída por jogadores, que alguns casos são bem capazes de ganhar uns 1000€ por dia, tanto quanto o valor mensal da comparticipação pública para os atletas de nível 2, como é o caso do Gustavo Lima. Mas a selecção olímpica de futebol não se conseguiu apurar e ninguém fez alarido nem se preocupou com isso. Uma selecção olímpica de futebol com potencial para poder estar a discutir uma medalha de ouro com a Argentina. Por isso, é engraçado constatar que quem não puxou as orelhas a esses atletas, venha agora criticar duramente aqueles que conseguiram superas as ‘provas de acesso’, como foi por exemplo o caso do Marco Fortes. Mas aos ‘atletas’ da bola tudo se perdoa, certo?

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Se alguma coisa tem de mudar? Eu acho que sim. Sobretudo pelo facto de considerar que podemos ir mais longe. Mas para se mudar é preciso começar neste caso por cima. Pessoas como o senhor Vicente Moura devem dar lugar a outros com uma visão estratégica mais abrangente e capazes de defender os atletas em todas as horas, sobretudo nas mais difíceis. Se ele sabe reconhecer os seus 70 anos, também deveria saber reconhecer que está na altura de começar a gozar a merecida reforma e a passar a assistir aos JO na televisão ou nas bancadas, mas nunca integrado num Comité Olímpico. E lamento que este senhor não tenha sido discretamente convidado a regressar mais cedo a Portugal.

Também ao nível dos atletas será necessário aprender com todos os erros cometidos nestes JO. Se um atleta cumpre com mínimos olímpicos e depois vem dizer que não está vocacionada para esse tipo de competição, ou que não vale a pena entrar numa prova porque a mesma será dominada por africanos, então não deverá fazer parte dos atletas que representam o país nessa competição. Isto parece óbvio.

Durante muito tempo parecia que andávamos à deriva na selecção nacional de futebol. Não éramos apurados ou fazíamos figuras tristes quando conseguíamos o acesso. Algo mudou e isso fez com que Portugal passasse a ser uma selecção com aspirações a ganhar títulos.

Uma mudança dessas já poderia ter sido implementada desde os JO da Grécia. Na altura, o desalento foi exactamente o mesmo ao que se viveu agora, e em 4 anos nada parece ter sido feito para mudar a atitude ao nível do desporto nacional. Temos mais 4 anos para nos preparar para os JO de Londres, só que esse tempo poderá ser curto para as profundas mudanças que deveriam ser executadas. E convém lembrar um aspecto importante: nós não somos um país que respira e vive o desporto, onde a sua prática seja um desígnio nacional, feito em condições cativantes, e com incentivos adequados.

Sem alterar isso não será lógico poder pensar em alcançar mais medalhas no futuro.

Em 2004, nos JO da Grécia, Portugal conquistou 3 medalhas (2 de prata e 1 de bronze) obtendo a posição 60 no ranking final.

Em 2008, nos JO da China, Portugal conquistou 2 medalhas (1 de ouro e 1 de prata) obtendo a posição 46 no ranking final.

Parece-me, repito, parece-me que apesar de toda a frustração global e de muitas críticas aos atletas, Portugal até conseguiu melhor desempenho nestes JO. Parece-me.

Participaram 204 países nos JO da China. Desses, apenas 31 tiveram atletas a ganhar pelo menos uma medalha. Portugal fez parte dessa lista.

“Que a Tocha Olímpica siga o seu curso através dos tempos para o bem da humanidade cada vez mais ardente, corajosa e pura” – Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna

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