Armstrong e o seu toque de Midas

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Armstrong tinha caído aos pés da USADA. Perdeu os 7 títulos conquistados no Tour e foi impedido de participar nas provas de triatlo organizadas pela World Triathlon Corporation (WTC), nas quais se inclui as do tipo “Ironman” e “Ironman 70.3”. A proibição da WTC sucedeu num momento em que Armstrong já ganhava provas do “Ironman 70.3” e todos estavam curiosos sobre o que ele seria capaz de fazer em Nice, uma prova do “Ironman”, onde poderia conquistar uma slot de acesso à mais famosa prova de triatlo do mundo, o “Ironman” de Kailua-Kona, no Hawai. E quando Armstrong estivesse a competir ao lado do Craig Alexander, tudo seria possível.

A USADA ditou a sentença, a WTC cumpriu e Armstrong não ficou parado. Queriam que ele ficasse em casa deitado num sofá a ver televisão? Nos últimos meses pouco nadou e dedicou-se sobretudo a fazer longas corridas de trail, de 3 a 5 horas de esforço físico. O Armstrong é assim. E entretanto surgiu o convite para participar no triatlo SuperFrog, organizado pelos Navy Seal desde 1979, sendo a prova mais antiga na distância de “Ironman 70.3” (1,9Km natação + 90Km ciclismo + 21Km corrida). Este triatlo SuperFrog surgiu com o objectivo de lançar o gosto pela modalidade nos Navy Seal e servir de treino para os que fossem participar no “Ironman” de Kailua-Kona. Tratando-se de uma prova privada, fora da alçada da federação americana de triatlo e dos tentáculos da USADA, nada impediria a participação do Armstrong.

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Às críticas negativas, os organizadores da prova justificaram-se com estes números: “Em cada 20 mensagens recebidas na nossa página no Facebook, 19 são de apoio à presença de Armstrong. Além disso, desde que se soube que ele iria estar presente, em poucos dias as inscrições subiram de 625 para 825 competidores”. Sendo esta uma prova também destinada a juntar fundos para a investigação do cancro, resta dizer que a presença de Armstrong fez dobrar os donativos. O Armstrong causa isto. Quando faltavam 20min para o início da prova, Armstrong dirigiu-se ao parque de transição e foi para junto do lugar marcado com o número 7, o qual ele tinha feito questão junto da organização de ficar com ele. Isso foi o suficiente para que uma multidão se juntasse nesse local para conseguir uma foto do grande ex-campeão e para que os media focassem a atenção apenas naquele triatleta.

Nessa prova do SuperFrog, o maior adversário de Armstrong seria o australiano Leon Griffin, ex-campeão mundial do Duatlo. Armstrong terminou o segmento da natação com alguns minutos de atraso em relação ao grupo da frente e saltou para a bicicleta a usar apenas o slip da natação. Rapidamente conseguiu colar-se a Leon Griffin (respeitando a distância obrigatória de 10m) e circulou atrás dele durante grande parte do segmento. Conseguiu fazer os 90Km em 2:02:48, o que dá uma média de 44,26 Km/h, estabelecendo um novo record nessa prova. Lançou-se na corrida e logo nos 3Km iniciais, feitos ao longo da praia, ultrapassou Leon Griffin e foi sempre a aumentar a distância que os separava. Terminou a prova em primeiro lugar, em apenas 3h49min, estabelecendo mais um recorde na prova. O vídeo da prova.

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Se nos fóruns de ciclismo existe grande divisão nas opiniões sobre o Armstrong – entre os que acreditam na sua inocência, aos que não duvidam do uso de dopping e passando pelos que acham que ele deveria ter levado a sua defesa até ao fim – já no mundo do triatlo parece existir um apoio unânime à sua participação em provas dessa modalidade. Em 10 opiniões consultadas a triatletas presentes naquele SuperFrog, praticamente todos disseram o mesmo: “I love it. It’s good for the sport. More exposure. It got me up this morning” ou “That’s why we’re here. We came here to watch Lance” ou “I love it. He should be in Ironman too. He should be in Kona in a couple weeks. That’s just my opinion I guess. He’s never failed a drug test, …” ou também “It’s fine with me I think it’s great”. O Armstrong é o Armstrong.

Qual é o resultado de tudo isto? Esta notícia bombástica: “Ironman quiere romper con la USADA para que Lance Armstrong compita en Hawaii”. Em resumo, a WTC pretende quebrar as ligações à USADA com o único objectivo de permitir o regresso de Armstrong às suas provas. Aliás, ao que parece, o desejo é tão grande que por eles o Armstrong teria que participar já na grande prova de Kailua-Kona no próximo dia 13 de Outubro. Loucura? Os números explicam o interesse dos responsáveis da WTC quando há meses atrás se soube da intenção do Armstrong em participar na prova de Kailua-Kona: as grandes cadeias de televisão como a NBC quiseram comprar os direitos de transmissão para mostrar a prova em directo. Mal se soube da sanção que impedia a participação de Armstrong, as cadeias de televisão decidiram que apenas fariam a transmissão em diferido. Imagine-se o dinheiro perdido em publicidade. Os hotéis chegaram a ter uma lista de espera de 70 pessoas por quarto. A sanção ao Armstrong causou uma quebra de 40% nas reservas e agora até sobram camas.

O Armstrong vale ouro e transforma em ouro os locais onde aparece. Só assim se entende esta possível intenção da WTC em cortar relações com a USADA, recorde-se, uma organização dos estados unidos, não governamental e sem fins lucrativos, criada com o objectivo de detectar os atletas que não praticam desporto de forma limpa ou honesta. Na prova que é considerada o o “Evareste” de um triatleta, o Craig Alexander estará na partida com o objectivo de ganhar a prova e muitos dos triatletas não profissionais estarão na partida apenas com o objectivo de chegar ao fim. No meio disso existem os responsáveis da WTC que apenas querem uma coisa muito simples: lucro. E para isso parece que não se importam de violar algumas das suas regras ou perder prestígio para ir buscar o norte-americano que foi derrubado pela USADA. O Armstrong será sempre o grande vencedor.

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5 respostas a Armstrong e o seu toque de Midas

  1. Brilhante, fabuloso… sem palavras!!! O Armstrong será sempre o grande vencedor. Assim espero 🙂

  2. Joao rita diz:

    “…E para isso parece que não se importam de violar algumas das suas regras ou perder prestígio para ir buscar o norte-americano que foi derrubado pela USADA. “.
    Discordo completamente desta afirmação. Para mim quem violou as regras foi a USADA, que não se baseou , nem teve a dignidade de suportar as suas suspeitas nas centenas de controlo anti-doping a que o atleta foi sujeito. Fez sempre as suas suspeitas nas afirmações de atletas dopados. de indivíduos que foram punidos pelo consumo de substancias dopantes. Inclusive , segundo a imprensa, chegaram ao cumulo de pressionarem a sua ex. mulher a depor contra ele.
    Imagine-se o que era agora virem a publico ex.companheiros de Bernard Hinault , M. Iduarain….. dizendo que eles se dopavam.
    As analises anti doping servem para isso mesmo, se são mal feitas isso já é outra história, como é plausível desconfiar-se do que levou estes ex-colegas de Armstrong

    • João, a concretizar-se este ‘divórcio’ entre a WTC e a USADA fica a pergunta: onde vai parar a verdade desportiva? Ou a USADA é uma organização absolutamente séria, totalmente independente e imune a pressões, sendo por isso de perguntar quem é que depois vai validar os resultados desportivos nas provas da WTC, ou, é uma organização que está podre, sujeita a pressões e que só quer o mal do Armstrong, e por isso, a WTC só terá a ganhar com essa decisão.

  3. Pingback: Lance Armstrong e a sua dieta vegetariana - De Sedentário a Maratonista

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