“Para lá do limite” ou a reportagem que todos deviam ver

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Carlos Sá é português e está entre os melhores ultramaratonistas e trailers do mundo.
Chega a correr o equivalente a 4 maratonas seguidas na montanha, ou a fazer 250 km no deserto por etapas. Uma equipa do Linha da Frente acompanhou o atleta nos Alpes numa das provas mais difíceis: o North Face Ultra Trail do Mont Blanc. Carlos Sá Correu de noite, sob uma intensa tempestade, durante mais de 11 horas e esteve à beira da hipotermia. Pelo caminho parou para salvar a vida a um colega espanhol e ainda assim conseguiu chegar ao fim em 4.º lugar. Será um super-homem ou haverá um super-homem em cada um de nós? Carlos Sá anda à procura dos limites e pelo caminho inspira muitos outros atletas. É o caso de Armando Teixeira e Natércia Silvestre. Uma reportagem de Rita Ramos, com imagem de Rui Rodrigues e edição de António Nunes. Reportagem pura e dura que retrata a dureza da realidade. Linha da Frente tem nesta nova temporada ambição de mostrar e contar mais histórias do mundo sem esquecer o seu foco português. Um espaço de compromisso com o inconformismo, com a reportagem, com a notícia, com a verdade
Direção: Nuno Santos/Rosário Salgueiro
Coordenação: Mafalda Gameiro.

Vi ontem esta reportagem sobre o Carlos Sá e outros ultra-maratonistas e … arrepiei-me. Que enorme vontade de sair por aí a correr pelas montanhas e enfrentar novos desafios. Parabéns à RTP por uma excelente reportagem e parabéns a todos aqueles enormes atletas que colocam Portugal no topo da modalidade do Trail. Uma reportagem que mostra o esforço físico sobre-humano a que estão sujeitos estes atletas, mas também, que dá uma importante visão de tudo o que os envolve na prática desportiva: a família, com todos os sacrifícios que têm de passar e as legítimas preocupações de quem fica na meta à espera de poder abraçar um grande vencedor; o treinador, que acompanha todo o esforço e dá um incentivo fundamental nos momentos mais difíceis; a vida profissional, fonte principal de rendimento para a concretização dos sonhos desportivos; a visão do passado, quando se era sedentário e muito diferente do que se é agora.

A família do atleta é a peça fundamental em toda a sua vida desportiva, e a família do Carlos Sá não é excepção. É a sua mulher que, à custa de muito sacrifício, tem de cuidar sozinha dos dois filhos quando o Carlos Sá se ausenta em longos períodos de treino. Momentos em que ela e os seus filhos poucas notícias recebem sobre o atleta que está ausente, nem fazendo ideia dos locais, alguns bastante perigosos, por onde ele anda. Por isso mesmo, quando o Carlos Sá cortou a meta em 4º lugar no UTMB, foi com toda a justiça que dedicou essa vitória à sua família.

À data desta reportagem, o Carlos Sá estava desempregado, tendo no entanto conseguido um patrocínio de uma empresa nacional para o teste de equipamentos desportivos. A sua mulher trabalha e ganha o ordenado mínimo, 485€. Como é possível? Não se entende como um atleta do nível do Carlos Sá possa estar nessa situação. Só mesmo neste país onde se acha normal gastar muitos e muitos milhões para contratar jogadores de futebol. E nem sequer se tratam de jogadores nacionais. Nada disso. Tudo gasto em contratações de jogadores estrangeiros, empurrando as jovens promessas para um futuro incerto, fazendo com que muitos possam passar ao lado de uma grande carreira desportiva pelo facto de não ter havido quem quisesse apostar neles. Assim é difícil. Esperemos que esta reportagem e muitas outras notícias do Trail, sirvam para ir mudando mentalidades e para convencer os investidores que aqueles atletas são uma aposta garantida de sucesso e retorno financeiro. Pode haver dúvidas quando se vê o palmarés do Carlos Sá? Só os sucessos conseguidos em 2012 deveriam mais que suficientes para que os patrocinadores não lhe largassem a porta.

2012
1st Trail dos Abutres 18km (Portugal)
1st Trail Glazig 18km + 42km (France)
1st Trail Terras de Sicó 38km (Portugal)
1st Ultra Trail Aldeias do Courel 83km (Spain)
4th Marathon des Sables – 250km’s self-suficient (Morocco)
4th Ultra Trail du Mont Blanc 103km (France/Switzerland/Italy)

Que não hajam dúvidas: aquilo não é para qualquer um. Ouviu-se isso diversas vezes na reportagem. Nem todos, por maior força de vontade que tenham, por mais que treinem, conseguem uma preparação que lhes permita vencer tão grande desafio. E dos poucos que conseguem, serão ainda muitos menos os que eventualmente terão condição para disputar os lugares da frente. Mas isso não invalida que aquela reportagem seja um enorme incentivo para que cada um procure ir mais longe nos seus objectivos desportivos, nem que seja apenas sair do sofá, calçar uns ténis e tentar fazer os primeiros 100m a correr.

Até porque o Carlos Sá, apesar de ter iniciado a vida desportiva aos 12 anos no atletismo, teve também um momento da sua vida em que foi igual a muitos outros sedentários. Engordou e chegou a pesar 94Kg. Para piorar, também fumava 2 maços por dia. WOW! Mas eu já vi este filme. Eu também andei pelos 100Kg e ingeria a mesma dose de nicotina. O Carlos Sá emagreceu e anda agora pelos 65-67Kg. Em emagreci e ando agora pelos 81Kg. Quando eu fumava, nem queria medir a tensão arterial ou saber das pulsações, para não me assustar. Agora, em repouso, eu deverei andar pelos 65-70bpm. Já o Carlos Sá (palavras do treinador, aos 21min da reportagem) fica-se pelos 28bpm. É isto que faz toda a diferença. Para não falar do peso, articulações, ligamentos e músculos, é este enorme pormenor que me separa do Carlos Sá.

Um enorme arrepio, uma enorme admiração e uma reportagem para ver e rever, sobretudo quando precisar de um incentivo.

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3 respostas a “Para lá do limite” ou a reportagem que todos deviam ver

  1. dcaldeirao diz:

    tambem vi…, excelente reportagem e como dizia a minha filha é muito parecido aos triatletas que fazem IronMan!!! é mesmo 😉 como é triste viver num pais que só conhece o futebol (ou melhor o slb), e o problema é esse mesmo, dizes que deveria apostar-se nestes atletas ou triatletas (veja-se o caso Marcio Neves) o unico problema é que as marcas não estão interessadas em nichos de mercado, estamos a falar de +-100mil pessoas que conhecem e falam disto…, mas do outro lado estão 9milhões que nem sabem que estes verdadeiros atletas existem!!!
    agora o peso e os bpm…, sabes a altura do C.Sá, provavelmente tem menos 10cm do que tu, logo podes ter mais 10kg do que ele!!! quando começares a treinar a “sério” e fechares a boca, vais ver que chegas lá 😉 em relação aos bpm 28!? pois…, só não explicou em que circunstâncias…, a dormir? após um dia extenuante? ou depois do almoço? há muitas variáveis…, já exprimentaste dormir com o garmin??? regista e depois logo falamos…
    mais uma vez te digo, não se pode comparar “coisas” sem comparação!!!

    • David, nem sei mesmo se os triatletas que se dedicam ao Ironman não terão uma vida ainda mais ‘ausente’ e de sacrifício que o Carlos Sá. É que correr pode-se treinar quase em qualquer lugar. Já o pedalar, p.e., nem sempre se consegue fazer em todas as ocasiões ou locais.
      O «fechar a boca» é a minha desgraça 🙂 Tento não fazer asneiras, ter cuidado com a alimentação, mas perco-me nas quantidades. E no meu caso, equilibrar o peso com a ingestão de alimentos e o consumo pelo exercício físico, não é tarefa fácil por causa das flutuações que costumo ter. Sou dos tais que só de olhar para o bolo já engordei.
      Ainda hei-de medir as pulsações logo ao acordar 😉

  2. Mário Amaro diz:

    Simplesmente fantástico.
    Adorei o grande trabalho do jornalismo;é disto que o meu povo gosta,já dizia o jorge Perestrelo.
    Neste portugal perdido, digo bem PERDIDO ainda á pessoas com vontade de viver, porque todo resto sobrevive ou rouba milhões,parabens carlos sá,obrigado

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