Assim é difícil ir a algum lado

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Ontem tropecei nesta imagem, uma das muitas sobre corrida com uma frase inspiradora, ou neste caso, com uma frase onde fiquei a pensar que estavam a falar de mim. Pois é, eu sou um desses que fica a olhar pela janela a admirar o tempo, a pensar “vou, não vou … não sei … e se depois isto ou aquilo”, para acabar, invariavelmente, por desistir de ir. O balanço final é sempre mais um treino que podia ter sido mas não foi.

Ontem fiquei mesmo irritado com isto, ou melhor, comigo. Tinha planeado fazer uma corrida antes de ir trabalhar (que ao final do dia não podia treinar). Levantei-me sem grande motivação e lá fui espreitar o tempo. Hum … nuvens escuras, chão molhado, muito vento, hum … isto ainda chove – pensei eu. Desisti de ir e, pensei mal, pois claro. Entre o desistir de ir e o começar a chover – umas pingas insignificantes – passou-se hora e meia, tempo mais que suficiente para fazer um excelente treino de 10Km. Ia a conduzir para o trabalho, a ver algumas pingas a cair e entretido num processo de auto-desmotivação – tu és mesmo isto ou aquilo, tótó, é assim que queres fazer um triatlo longo? tem juízo, pá! – quando vejo uma rapariga a correr na berma. Calções, t-shirt, cabelo apanhado, phones nos ouvidos e um bom ritmo de corrida. Frio, vento ou chuva? Aquela rapariga merecia que lhe tirassem uma foto para aparecer ao lado de muitas frases motivacionais da corrida, tal era o ar de empenho que levava. Se já ia frustrado pela má decisão que tinha tomado, ainda fiquei pior ao ver aquela gazela indiferente às condições atmosféricas.

Mas a chuva faz algum mal? Creio que não. Ou melhor, aos outros não faz. O que não falta é relatos de treinos feitos à chuva, que acabaram com um rico banho quente, sem que existam indícios de uma posterior constipação, bronquite ou pneumonia. Aliás, o que seria do Carlos Sá se tivesse de enfrentar estes dramas existenciais. De certeza que já teria desistido do trail. Mas é vê-lo sempre com aquele sorriso contagiante, ar de pessoa saudável e imune a rinovirus ou bactérias foleiras. A questão é esta: a malta do desporto divide-se em dois grupos, os rijos e os vulneráveis. Eu estou no segundo grupo, numa categoria específica, designada por “Florzinha de Estufa”, cuja definição é esta:

“Florzinha de Estufa”, s.m.: Pessoa que, apesar de se armar em valente perante as condições atmosféricas adversas, acaba invariavelmente por ficar dói-dói por vários dias. Verifica-se também que esse período de recuperação é diretamente proporcional ao índice de PDI, vulgarmente conhecido por Puta da Idade.

Eu não posso lutar contra isto. Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim … Floooooorzinhaaaaa de Estuuuuufaaaa! Há que lidar com isto, mas não é fácil. Correr com um frio do caraças só com uma camisola de alças e um gorro para aquecer os miolos? Há quem faça. Aqueles do grupo dos rijos.

Vamos voltar à chuva. Isto deve ser trauma. Eu tenho tanto receio de apanhar pingas de chuva como os vampiros têm de apanhar raios de sol – falo daqueles vampiros à séria, não aqueles que andam numa escola secundária em plena luz do dia, com ar de carneiro mal morto e que preenchem as paredes dos quartos de muitas adolescentes. Se calhar tenho receio que a correr as pingas de chuva se transformem em sangue de Alien, que derretem tudo onde tocam. Ainda hoje não percebi que receio é este de enfrentar um treino à chuva. Mas tenho a certeza que o exército tomou uma excelente decisão ao passar-me à reserva territorial há 26 anos.

O receio da chuva deve ser o mesmo receio de adoecer. Mas uma coisa é ter receio e os factos demonstrarem que não há motivos para isso, outra é os factos mostrarem que eu sou mesmo um “Florzinha de Estufa”. Veja-se como tem sido o meu mês de Fevereiro:

treinos fevereiro

Uma primeira semana muito boa. Sem muito volume, é certo, mas com muitas sessões, a dar confiança para as semanas seguintes. Uma segunda semana razoável, com mais volume. Mas a partir daqui, começam as macacoas e os achaques. Dias 12 e 13 de paragem por causa de sintomas de constipação. Dia 16, depois dos 60Km de ciclismo, aparecem sintomas de forte dor de ouvido e garganta. Mas atenção que falei no singular, pois felizmente, tenho 2 ouvidos. Por caricato era uma dor apenas do lado direito. Digamos que estava 50% incapacitado. E por causa disto, toca de passar os dias seguintes a anti-inflamatório. O senão é que o treino longo de corrida previsto para o dia 17, o treino de natação para o dia 18 e o treino de corrida para o dia 19 passaram a miragem. AH! E o dia 21, com corrida agendada, foi o tal onde fiquei feito parvo a olhar para a janela. Dias 23 e 24 … não estão a anunciar que vem aí um frio polar?

Em resumo, só consigo planear com certeza os treinos da natação, já que são os únicos realizados em ambiente controlado. Quanto muito arranjo pé de atleta, mas isso cura-se com pomadas e até serve de distração enquanto se coçam os dedos do pé. Corrida, já sabe: nada de chuva. E nada de muito frio, pois isso é chamariz de bronquites. Por fim o ciclismo: nada de chuva, nada de frio extremo e nada, mas nada de vento muito forte ou com rajadas intensas, já que o receio de me estatelar ultrapassa o receio de tosse intensa. Saliente-se também que o ciclismo em tempo frio tem sido o principal responsável das minhas últimas maleitas.

Assim é difícil ir a algum lado ou fazer planos para cumprir objectivos desportivos ambiciosos.

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15 respostas a Assim é difícil ir a algum lado

  1. Caldeiraodferro diz:

    até que enfim que te vejo chamar os “bois pelos nomes”…, não há nada como termos a consciencia de nós próprios, sem dramas!!! este autodiagnostico diz simplesmente que podes ter planos e objectivos desportivos, mas só entre Abril e Outubro, é uma especie de 1/2época…

    • 🙂 David, daí que o (meio) Tri Iberman em Outubro vinha mesmo a calhar bem. Assim, a 11 de Maio …

      • caldeiraodferro diz:

        será possivel que já andes a arranjar desculpas para não fazer o triatlo em maio??? és demais… (quem não te conheça….) certamente que podes ter outros objectivos, mais ambiciosos, se for em setembro/outubro, mas podes perfeitamente fazer este só para “treinar”!!!

  2. Lénia diz:

    Maio é perfeito, Luís! Cheguei a essa conclusão, depois de verificar que o meu pico de forma é atingido quase sempre no final da Primavera. Vem o Verão, vêm o “cambalacho”, a praia, o calor, as bolas de berlim, as férias dos miúdos e as provas em Setembro e Outubro são sempre muito sofridas.
    Aliás, quando mudaram a data de Outubro para Maio, pensei como tu. “Ena pá, já em Maio?” Mas não, é melhor assim. Assim despachamos o assunto e no início do Verão estamos aí em plena forma para aguentar melhor o calor. Quem é que quer andar por aí a correr 20km e pedalar 80-100km com 35.ºC? No ano passado, verifiquei que não é para mim. Talvez seja da PDI mas o calor e o esforço físico matam-me. Talvez faça um Tri Olímpico em Julho, mas só se ganhar a bagagem a partir de agora, pois a partir de Junho será só manutenção.
    Bem, frio e chuviscos: Ora, eu sempre adorei a corrida com chuva. Mas se o teu corpo é daqueles assim tão “permeáveis” :-), só tens uma coisa a fazer – protege orelhas e garganta durante a corrida e ciclismo. Sai de casa bem vestido (e caso seja necessário despes o que está a mais durante o treino), e nem penses em arrefecer ao frio (ou distraíres-te na conversa com alguém e arrefecer). Volta logo para casa faz, os alongamentos e enfia-te debaixo de um duche quente. Se puderes, bebe algo quentinho e come, COME! Abastece e protege o teu corpo, a tua máquina e sistema imunitário. E atenção à qualidade!

    Isto claro são apenas conselhos que poderão servir para alguns e para outros não. Mas comigo funciona.

    Olha e ainda ontem foram quase 50km na bike a levar uma sova de vento e chuva. Fiquei tão contente!!! Apenas porque superei um dos meus maiores medos : pedalar à chuva com bike de estrada. Desde que fui ao Tróia-Sagres fiquei vacinada (e nem sequer apanhámos muita chuva lá)!

    Abraço e continua, pois em Maio quero-te lá ao meu lado (ou atrás :-D).

    • 🙂 Comentei primeiro a seguir a este e nem reparei que tinhas este comentário. Pois eu sigo sempre tudo aquilo que recomendam, mas mesmo assim, dou-me mal. Isto é mesmo defeito deste corpo de atleta 🙂
      Entretanto sou eu que te vou fazer uma sugestão: lembra-te que com a chuva a probabilidade de haver furos é maior. E mesmo sem chuva podes sempre furar. Ou seja, não deites a perder todo o período de treinos, para poderes ter que desistir a meio da prova por causa de um furo e não saberes mudar uma câmara-de-ar. Nisso já estou equipado com botijas de CO2 para fazer um enchimento rápido.
      Temos de combinar um dia destes fazer um treino para simular uma mudança de câmara-de-ar. Tens de estar preparada para isso. É fácil, acredita.

      • Lénia diz:

        Há uma grande probabilidade de vir a furar, mas se isso acontecer e não me conseguir desenrascar, já estou preparada psicologicamente. Mais importante do que a prova, vão ser estes meses de treino. Aqui é que reside o verdadeiro desafio, o de semana após semana conseguirmos ir somando pequenas vitórias. 🙂 Ena pá, esta agora saiu-me bem ! 😀

  3. Lénia diz:

    Ah, e esse frio polar? Não chega cá! Já prevêem temperaturas mais altas. Yessss! Domingo lá estarei em Faro para mais uma aventura! Mas bem agasalhada, claro…

    • Lénia, o ciclismo tem sido uma desgraça. O regresso tem sido penoso: à rasca do rabo e à rasca da garganta ou dos ouvidos por causa do frio e do vento. E no Domingo é para esquecer: sempre o problema logístico e a falta de andar com mais frequência.
      Noutro dia faço-vos companhia. O mais certo é ir correr para o Ludo

  4. David, nada disso. Acredita que neste momento o Tri Iberman é o meu maior objectivo desportivo. Até sonho com aquilo. Eu quero lá estar na inauguração do evento e quero fazer a estreia no 70.3 ali. O meu desabafo neste texto é que vejo o tempo a fugir e os treinos previstos a ficarem de lado por causa destas maleitas. É como se desse um passo em frente no volume de treinos e logo a seguir tivesse de dar 2 passos atrás. É frustrante 😦

  5. Joao rita diz:

    “é nos limites da dor e sofrimento que se separam os homens dos meninos”.

    Quando lei-o os teus posts fazes-me lembrar aqueles tipos que que arranjam todo o tipo de desculpas para ficarem no sofá… como por exª . ou é por estar frio, ou por estar a chover, ou por estar muito calor., ou sei lá porque vai dar o Benfica na TV ….
    Inspira-te no video do PAI e FILHO no ironman. Pode ser que assim saias dessa letargia
    Bons treinos
    Joao Rita

    • 🙂 João, há os posts inspiradores, que motivam qualquer um a lançar-se no desporto. Mas estes, reconheço, são uma maravilha para os que arranjam desculpas para se baldar aos treinos. Vamos ver se a próxima semana será mais produtiva. Assim, como ando a preparar-me, só se for para fazer um triatlo Sprint … e mesmo assim …

  6. Quando tenho um treino agendado para o próprio dia, só penso: faça chuva, vento ou caia uma tremenda trovoada vou treinar. Há um pensamento que me ajuda nesse tipo de situações, é visualizar o momento em que cruzo a meta de determinada prova para que me ando a preparar. No meu caso, a minha primeira Meia-Maratona. Bons treinos e fogo à peça!

    • Sílvio, eu também imagino esse momento e recorro a ele muitas vezes quando estou a meio de uma prova e as forças vão faltando. Mas neste caso, tenho imaginado o momento mas depois caio na realidade ao perceber que pouco tenho feito para o atingir. A minha estreia na Meia Maratona foi em Lisboa, em Dezembro de 2011. É um daqueles momentos que nunca se esquece e uma vitória que guardamos com muito orgulho. Toca a treinar 🙂

  7. Rute diz:

    Eu sou ao contrário: gosto de correr com frio e chuva (dentro dos limites), mas chega o calor e vou adiando o treino para mais tarde no dia, quando “já não estiverem 40º graus à sombra” e depois às vezes fica tão tarde que já não quero sair para correr sozinha… 🙂
    Agora os dias começam a ficar melhores, a motivação há-de voltar!

    Bons treinos.

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