XII Triatlo Cidade de Quarteira – C. N. Clubes

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Ali estou eu, ao centro, de touca vermelha, a começar a correr até ao Parque de Transição (PT). Domingo, 7 de Abril, arranque da minha época de triatlo em 2013, num ano onde será muito difícil realizar mais provas do que as que fiz em 2012, já que a crise obriga a tomar muitas opções e a cortar em muitas coisas, principalmente em deslocações para fora do Algarve. Por isso, era muito importante não falhar a prova mais perto de casa, logo a seguir às que se realizam em Ayamonte e arredores. Até São Pedro parece gostar do triatlo, já que acalmou o mar, transformando-o numa piscina, reduziu o vento a uma brisa, aumentou a temperatura e tirou as nuvens do caminho para ajudar a ganhar um bronze ligeiro. Melhor que isto era difícil. A pensar que uma semana antes tínhamos estado ali para tentar fazer um treino, e estava tudo bem diferente: chuva, muito vento e ondas de 2m. Só se manteve uma coisa igual: a temperatura da água, entre o muito frio e o gelado. Mas afinal, para que queremos aqueles fatos de borracha que dão muito trabalho a vestir e que queremos sempre despir em 2 segundos?

Antes da prova, a expectativa era saber se os treinos para o Iberman iriam produzir grande diferença nos resultados face à prova de 2012, onde não tinha tido nem metade da preparação actual. A aposta passava claramente pelo ciclismo, pois seria esse o segmento onde poderia ir buscar mais tempo. O resultado foi este:

Natação Ciclismo Corrida Final
  Pos Tempo Pos Tempo Pos Tempo
2012 159 00:13:47 198 00:41:03 185 00:23:45 01:18:35
2013 158 00:14:14 167 00:39:05 172 00:23:04 01:16:24

Em termos globais, melhorei 00:02:11 face a 2012. Fiz uma natação ligeiramente pior, um ciclismo consideravelmente melhor e uma corrida ligeiramente melhor. Se fiquei satisfeito? Claro. Mas confesso que pensava conseguir melhorar mais. Nas medições do Garmin durante o ciclismo, achei que a meta de 01:15:00 estaria ao meu alcance desde que fizesse uma corrida igual a 2012. Cheguei a pensar que estava a reduzir uns 5min a 4min, mas afinal a melhoria limitou-se a cerca de 2min. De qualquer forma, será para os meus padrões um bom tempo, somando-se o facto de ter chegado ao fim sem qualquer acidente ou lesão.

Antes da prova

Se nas provas de corrida existe sempre alguma ansiedade, nas de triatlo, por mais que tente evitar, existe sempre muita ansiedade ao pensar que vou ter de me lançar à água no meio de muitas dezenas. Por mais que se nade na piscina, nada nos prepara para aqueles momentos iniciais de muita agitação na água e cacetadas de quem quer ganhar um espaço para nadar. Depois é a questão do ritmo, que se torna muito difícil de gerir no meio daquela confusão. Se não houver cuidado, podemos começar a nadar demasiado depressa, estourando ainda antes da primeira bóia, tal como me aconteceu em 2012 na prova de Oeiras.

A ansiedade já se sabe que existe, porém, existem coisas que se podem fazer para ajudar a minorar os seus efeitos. No meu caso é garantir que tudo é feito com calma e com tempo, algo que só se consegue se houver um bom planeamento e se chegarmos a horas aos eventos. Isso quer dizer que muitos dias do evento eu já previ aquilo que me possa faltar, procedendo à sua compra com antecedência. Dois dias antes já previ tudo o que vou levar e de forma o vou fazer. Na véspera preparo tudo e no dia da prova, só tenho de comer, agarrar nas coisas e chegar lá com bastante tempo. Se a prova é as 11:30, eu chego lá às 10:00 ou antes disso. Para quê tão cedo? Para saber que ainda tenho tempo para fazer tudo com calma. Ou seja, que posso dar entrada no PT sem correrias e preparar tudo para a transição de forma pausada e pensada. Que posso sair de lá pelas 10:30 ainda com tempo para as fotos e para falar aos amigos. Que por volta das 10:45 posso pensar em começar a vestir o Wetsuit e que por volta da 11:10, no máximo, estarei sozinho ali na praia, a pensar em fazer o aquecimento e a concentrar-me em tudo o que estará para vir. Se tudo isto for feito assim, a ansiedade continua lá, mas fica controlada.

Natação

Triatlo Quarteira Natação

Início do aquecimento e constatação daquilo que se esperava: a água estava fria, vá lá, gelada. Ou seja, primeiros metros, primeiras braçadas e a luta para tentar controlar a respiração e habituar a cabeça a respirar dentro de água. Este é dos tais processos  fundamentais para garantir que se consegue nadar em condições quando a prova começa. Se não se fizer isto, o corpo vai estar a lutar contra a temperatura da água, a respiração fica incontrolável com sensação de se estar a sufocar e os óculos, muito provavelmente, vão embaciar bastante, o que irá contribuir para aumentar o pânico e a desorientação.

Aquecimento feito com várias entradas e saídas da água. Passo seguinte, juntar-me aos que já se iam alinhando na praia , olhar para a primeira boia e tentar entrar num estado de meditação para me concentrar naquilo que será necessário fazer a seguir: “nadar, respirar, nadar, respirar, olhar a boia, controlar ritmo, controlar posição, nadar, respirar …”

[Buzina] E lá vamos nós! Aqui há 2 hipóteses. Ou corremos como os outros e tentamos entrar ao mesmo tempo sem levar muita porrada, ou vamos num passo mais lento e deixamos a multidão nadar toda à nossa frente. Até hoje fui sempre pela primeira hipótese. Desconheço o autor da foto seguinte e lamento não lhe poder fazer a devida referência. Uma foto tirada lá em Quarteira e que mostra bem a confusão e euforia que existe quando mais de 200 triatletas se lançam à água ao mesmo tempo, todos com o objectivo de chegar primeiro à mesma boia ali à frente.

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Mergulhamos e tentamos não bater no que mergulhou mesmo à nossa frente. Começamos a nadar e tentamos fugir dos que vêm logo atrás e que começam a dar chapadas nos nossos pés. Tentamos avançar a direito e levamos encontrões de quem está ao lado a tentar fazer a mesma coisa. E quando tudo parece estar encaminhado, eis que alguém vindo de um dos lados e com problemas de orientação se atravessa no nosso caminho. Desta vez sucedeu o mesmo. Já estava a entrar no ritmo quando sinto um manjerico à minha direita a começar a cortar a passagem. Eu e outros apontávamos para a boia, mas ele, creio que apontava para Marrocos. Abrandei um pouco para o deixar passar e não andarmos ali aos empurrões, ele coloca-se à minha frente e eu descubro que sou um pouco mais rápido. Fixe. Tinha um tampão à frente e tinha de o ultrapassar.

Olhar a boia. É preciso olhar a boia. Eu olhei, olhei, mas não a vi. Sabia que estava ali à frente pois já a tinha visto da praia, mas no meio da confusão, com tanta agitação na água, nada de conseguir ver um ponto amarelo. Ou seja, durante uns 200m terei nadado apenas a guiar-me pela orientação dos nadadores do meu lado esquerdo, posição para onde respiro sempre como se não houvesse outra possibilidade. Se por acaso eles estivessem mal orientados, eu iria atrás do seu erro. Era um risco. Finalmente comecei a ver a primeira boia e passei a orientar-me apenas por ela, esquecendo quem estava ao lado.

Chegado à primeira boia, vem o receio de haver muita confusão a contorná-la. Não foi o caso. Viragem rápida para a segunda boia e toca a enfrentar um troço que costuma ser calmo por haver mais espaço para nadar. É também a parte em que se vai ao longo da praia, coisa que me fazia pensar nos que esperavam por mim no areal e ganhar mais força com isso.

Viragem na segunda boia com alguma confusão e encontrões. Daí até à praia era quase uma linha recta. Durante um bom bocado fui sempre a nadar quase colado a um que estava à minha esquerda e que até parecia meu colega da natação sincronizada, tal era a coincidência com que respirávamos ou dávamos braçadas.

Chegado a terra, só tentei levantar-me quando um braço tocou na areia, sendo essa uma regra de ouro. Bastante ofegante, como é costume, lá corri para o PT.

A transição Natação / Ciclismo

Qual a novidade em relação a 2012? Desta vez os sapatos já estava presos nos pedais e seguros com elásticos, tal como os ‘profissionais’ fazem. Sim, tinha andado a treinar isso e sentia-me confiante para subir para a bicicleta e só calçar os sapatos em andamento. Despi o fato de forma rápida, coloquei os óculos, o capacete, agarrei a bicicleta e saí a correr. Mas faltava uma coisa: colocar o Garmin no pulso. Pôrra, foi mais um momento daqueles em que uma parte não queria enfiar na outra. Eu, parado dentro do PT a tentar enfiar aquilo, e outros a passarem por mim. Quando voltar a fazer outro Sprint, tenho de arranjar outra solução. Subida para a bicicleta e nem 200m passaram até ter enfiado os dois pés dentro dos sapatos e apertado a fita de velcro. Melhor do que calçar os sapatos dentro PT e ir a correr com eles.

O Ciclismo

Triatlo Quarteira Ciclismo

E finalmente … um grupo! Sim, estavam 4 ciclistas à minha frente que eu consegui apanhar logo no início. E agora? Seriam mais lentos e eu teria de seguir sozinho? Seriam muito mais rápidos e eu não os conseguiria acompanhar? Não. Eram tal e qual aquilo que eu precisava, num ritmo ideal. E assim fui, colado a eles até à subida manhosa. Seriam grandes trepadores e deixar-me-iam para trás? Não. Subiam à mesma velocidade. Fixe. Faltava agora perceber o que ia acontecer na descida manhosa.

Eu tenho um sério problema (entre muitos outros) nas descidas. Nos treinos com outros do triatlo, quando vamos para a Serra, eu ainda os acompanho nas subidas, mas basta vir as descidas, com curvas e contra curvas, que logo desaparecem da minha vista. Será pelo facto de eu começar a travar à bruta? Pelo receio de entrar demasiado depressa numa curva e espalhar-me? Enfim. Nas descidas sou uma desgraça e não sei se alguma vez conseguirei vencer este medo.

Veio a descida manhosa e era preciso fazer uma curva à direita. Travei e lancei-me na curva na velocidade que me pareceu razoável, mas como já esperava, fui um pouco mais lento que os restantes do grupo. A distância era curta, fiz um sprint e lá me colei a eles novamente. E pronto, tinha ali grupo para seguir até ao final da prova.

Começámos com 4, aos poucos foram vindo mais, e outros foram sendo apanhados pelo caminho. Na segunda volta já éramos uns 10. Ora isto de andar em grupo numa prova Sprint não é algo pacífico. É preciso ter muita atenção e cuidado. É preciso planear os movimentos com antecedência e estar sempre muito atento aos que nos rodeiam ou que estão a trás, para garantir que não há toques. Basta um para que se dê a queda colectiva com consequências que podem ser graves.

Felizmente tudo de forma impecável. É curioso que a certa altura achei que estava a fazer um tempo fantástico, que conseguiria reduzir uns 5min em relação a 2012. Afinal não foi bem assim. Neste triatlo fiz média de 31.9Km/h (num grupo) e em 2012 tinha feito 30.1Km/h (sozinho), o que correspondeu a uma redução de 1’52’’. Com  isto só posso dizer é que a estreia em 2012 num Sprint foi feita em grande nível.

Uma nota final para o regresso ao PT. Sabia que eram 3 voltas de bicicleta e além disso o Garmin também me indicava que estava próximo dos 20Km. E não sei porquê, em vez de ter saído da Avenida num tal desvio que até estava bem assinalado, tive assim uma espécie de bloqueio e decidi seguir em frente. Fui eu e outro que estava atrás de mim, ficando os dois a olhas para os restantes que já estavam do outro lado do separador, bem encaminhados para o PT. Bem, por sorte havia um desvio mais à frente. Perdi uns segundos a manobrar para lá entrar, mas lá consegui ir para o caminho certo.

A transição Ciclismo / Corrida

Apenas a mencionar que nada houve de relevante para mencionar. Cheguei, estacionei, tirei o capacete e os óculos, calcei os ténis e Weeeeeee!

A Corrida

Triatlo Quarteira Corrida

Sempre sem saber aquilo que as pernas podem dar, sempre sem saber se um músculo vai rasgar, sempre sem saber se todas as picadas, impressões e moinhas dos dias anteriores iriam causar problemas. Arranquei e entrei naquele ritmo de corrida pós ciclismo, onde não sentimos as pernas e o ritmo é difícil de controlar. Primeiros 200m e ritmo nos 4:15min/Km. Chegada ao 2º abastecimento,  nos 1250m, e um ritmo que chegou a variar dos 3:50min/Km aos 4:45min/Km. Bem bom. Nem na pista tinha corrido tão depressa.

Mais 1250m no regresso junto à meta e o ritmo a fixar-se próximo dos 4:30min/Km. A manter-se assim, suspeitava que iria conseguir fazer melhor que em 2012. Mas depois da viragem junto ao último abastecimento, quando faltavam apenas 1250m para a meta, houve alguma quebra, com o ritmo a situar-se mais próximo dos 4:45min/Km. Não foi propriamente uma quebra de cansaço, mas mais uma quebra da ‘mecânica’ do joelho esquerdo. Já me tinha acontecido o mesmo na pista a fazer séries: a certa altura tudo parece ficar preso, sendo difícil coordenar o movimento. Quero fazer a rotação da perna mas o joelho parece não querer colaborar. A sensação que se tem é de estar a coxear e a correr de forma completamente descoordenada. Fui assim até à meta e nos metros finais lá consegui fazer algo parecido com um Sprint para impressionar todos os que estavam ali a aplaudir.

Estava feito. Melhor tempo nos 5000m, a tirar 41’’ em relação ao tempo de 2012.

Depois disso, como já é hábito, fomos almoçar ao Rodízio de Pizza, onde cometemos todos os exageros sem sentimento de culpa. Depois disso era tempo de voltar a pensar em longas distâncias e a treinar para uma prova que será 4 vezes maior que aquela.

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5 respostas a XII Triatlo Cidade de Quarteira – C. N. Clubes

  1. Meu amigo, escreves como nadas, como pedalas e como corres: com paixão! São 21h30 e estás a dar-me uma vontade do caraças de sair do computador e desatar a correr e isso só pode ser bom, principalmente depois de um dia em que não treinei tudo aquilo que queria ter treinado. Enfim, melhores dias virão e com malta como tu nessas lides, certamente motivação não irá faltar! Um grande abraço e… e grande corrida, xiça!!! 😉

    • 🙂 José, posso não conseguir fazer grandes marcas desportivas, mas confirmo que sou grande apaixonado por este desporto que junta 3 modalidades, coisa que me leva a divagar bastante quando falo sobre ele. Só lamento é que esta crise tenho vindo dar cabo de muitos planos. Noutra situação seria bem provável ir ao triatlo do Estoril, a Peniche e a repetir Oeiras. Mas como isto está, só mesmo em sonhos.
      E este ano, se vieres aqui a banhos, apita para se combinar um treino

  2. Parabéns! Pela excelente prova e pela descrição com tantos pormenores! Muito interessante, até fiquei com vontade, mas a natação e eu não somos grandes amigos! Bons treinos e boa preparação para o grande desafio!

    • Obrigado Sílvio. Quando escrevo sobre estas provas acabo sempre por detalhar ao máximo, sobretudo a pensar no futuro, como forma de um dia mais tarde poder recordar todos os pormenores da prova, que de outra forma acabariam por ficar esquecidos.
      No próximo dia 28 de Abril vai haver uma prova aberta no triatlo de Estoril. O mesmo a 10 de Junho em Oeiras. São provas onde é preciso nadar 300m, pedalar 10Km e correr 2,5Km, abertas a qualquer pessoa que se inscreva. Se essa natação estiver fraca, mas mesmo assim for suficiente para fazer os 300m, eu fazia o convite a tentar. É uma experiência muito boa, sempre com um ambiente fantástico à volta. Aliás, são provas feitas com voltas, o que favorece quem vê e aumentando o apoio dos que aplaudem. Se precisares de tirar alguma dúvida sobre essas provas ou tiveres vontade de participar, pergunta-me o que quiseres, que terei todo o gosto em ajudar

  3. Anónimo diz:

    Como gosto muito destes relatos, aqui estou a dar os parabéns e a incentivar a continuação. Duas coisas: o garmin não gosta de água? qual o impacto da transição mais comprida no tempo final do ciclismo? (estas são só para animar!!). Bons treinos e saúde!!

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