Iberman, ou a linha que separa os triatletas

A prova

Iberman La Luz, a prova de triatlo na distância de Ironman (3.8Km Natação + 180Km Ciclismo + 42Km Corrida) que teve a sua primeira edição a 5 de Outubro de 2013. Uma prova organizada pelo CD Iberman com a colaboração da FTP. O primeiro triatlo de longa distância do mundo a unir dois países, neste caso, Portugal e Espanha.

A natação era feita no mar, em frente a La Antilla, província de Huelva, Espanha. Aí tinha início o segmento de ciclismo que seguia em direcção a Norte até atravessar a fronteira no Pomarão, próximo de Mértola. Nesse ponto tinha início um sobe e desce bastante desgastante para todos os que ainda tinham que chegar a VRSA, onde estava instalado o segundo parque de transição. A corrida atravessava a ponte sobre o Guadiana e próximo de Ayamonte começava mais tortura: uma subida até ao miradouro e entrada em zona de reserva ambiental, onde o piso alternava entre terra batida e alguma areia solta. Depois disso havia alguns Kms de alcatrão para dar algum ânimo, para de seguida se atravessar uma zona de pinhal com muita areia solta. Daí para a frente os participantes passavam junto da meta para perceberem que o fim estava próximo. Será? Nem por isso. Nesse ponto ainda tinham de correr mais 10Km, dos quais, 2Km eram ao longo da praia em plano inclinado e com muita areia solta e mais outros 2Km em terra batida para mostrar que aquela prova era bem mais dura que muitas do circuito mundial do Ironman.

Às 8:15, hora espanhola, cerca de 700 participantes lançaram-se ao mar para dar início a uma prova onde a condição física seria levada ao limite. Os mais rápidos iriam gastar cerca de 10h para chegar ao fim, os mais lentos, mais de 16h. O importante era cortar a meta antes do tempo máximo de corte da prova, fixado em 17h.

Entre 700 participantes, 92 eram portugueses. A maior comitiva de sempre numa prova na distância Ironman, o que se explica sobretudo pelo baixo preço de inscrição e pela proximidade geográfica da prova. À partida, a proporção de triatletas portugueses era de cerca de 1/7. No final, o Top 10 incluiu 5 portugueses, numa proporção de 1/2. Brilhante. Mais, a primeira edição do Iberman na longa distância foi ganha pelo espanhol José Ángel Penas (10:03:21), com o segundo lugar a ser ocupado pelo português João Oliveira (10:05:02), e o terceiro pelo português Rafael Delaunay Gomes (10:07:43). Benek Morais foi 6º, David Caldeirão o 8.º e Telmo Veloso terminou no 10.º posto da classificação geral.

O arranque da prova quando o sol ainda não se via no horizonte. Fico a imaginar o que estariam a pensar naquele momento. A pensar se muitos estreantes estavam a digerir que aqueles seriam os primeiros passos para uma longa aventura, a qual poderia não terminar em glória caso não tivessem uma adequada gestão do esforço e um cuidado especial com a ingestão de líquidos e sólidos

8:15, arranque da prova

 

O nascer do sol em Antilla quando todos estavam a nadar. Bonito, mas problemático quando a bóia ficava no seu alinhamento e impedia uma correcta navegação.

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Mal se atravessava a ponte no Pomarão e se entrava em terras lusitanas, Pumba! Uma ‘parede’ a fazer lembrar que o pior estava para vir. Muitas subidas para massacrar as pernas de quem ainda teria de correr (ou percorrer, fosse como fosse) 42Km. AH! E calor. Muito calor naquele início de Outubro, a facilitar o escaldão e a contribuir para a desidratação.

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Furos, calha a todos. Infelizmente calhou neste caso ao Nelson Mestre, dos Leões do Sul, que estava muito bem posicionado no ciclismo e a fazer uma excelente prova.

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“Não é permitido andar na roda” é sempre um lugar estranho

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Ok! Eu já fiz 2/3 da prova. Já voltei a comer, hidratei-me, mentalizei-me e … SÓ falta fazer 42Km. Venham eles, pôrra!”

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Travessia da ponte do Guadiana, provavelmente, um dos lugares mais belos do segmento da corrida. Onde as pernas ainda não tinham que enfrentar terra batida ou areia solta.

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Mas o que é bom acaba depressa. Venha a tortura que a malta ainda está fresquinha.

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E depois de muito, mas muito sofrimento, de muitas horas de esforço intenso, como classificar a alegria e euforia de cortar aquela meta?

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Números

Dos 681 inscritos, 73 não compareceram à partida.

608 triatletas lançaram-se ao mar em Antilla, 9 mulheres e 599 homens.

548 triatletas conseguiram cortar a meta, 6 mulheres e 542 homens.

O tempo médio de prova do total de Finisher foi de 12:51:33.

59 triatletas desistiram, 3 mulheres e 56 homens

1 triatleta masculino foi desqualificado

16:25:36 foi o tempo gasto pelo último a cortar a meta.

Dos 59 que não terminaram, 9 desistiram após a 1ª volta na natação, 27 desistiram após a 2ª volta na natação, 23 desistiram durante ou após o segmento do ciclismo.

O sofrimento

Eu andei a acompanhar de carro parte do segmento de ciclismo. E quando me desloquei para VRSA para assistir à transição para a corrida de alguns amigos, enquanto ia na estrada de acesso, logo a seguir a Castro Marim, o primeiro choque foi ver muitos e muitos a andar. Nem tinham feito 5Km de corrida e já iam a caminhar, consequência evidente dos estragos causados pelo sobe e desce do segmento de ciclismo.

Uma coisa é ver vídeos de atletas em sofrimento. Outra bem diferente é estar ao lado deles na prova, a olhar nos seus olhos, a tentar perceber se vão ser capazes de chegar ao fim ou se o corpo vai entrar em colapso, recusando-se a fazer mais qualquer esforço.

Quando cheguei junto à meta, em Antilla, peguei numa bicicleta que tinha levado no carro e fui a pedalar em sentido inverso à procura do meu colega de equipa do NSLO Triatlo. Encontrei-o quando estava a cerca de 15Km do final da prova, numa zona de pinhal onde era necessário correr, andar, fosse o que fosse, sobre areia solta e caruma. Quando o vi percebi que a coisa estava complicada. “Como estás?”, perguntei. “Mal, muito mal”, respondeu ele. O estômago recusava-se a aceitar fosse o que fosse. Nem líquidos, nem sólidos. “Dói-me tudo”, dizia-me, enquanto eu seguia ao lado dele a empurrar a bicicleta. Andava, tentava correr mais um pouco, e parava mais à frente sem se perceber se ia vomitar ou parar de vez. Repetiu este processo vezes sem conta durante os mais longos 15Km que já fiz. Apesar de tudo mantinha o bom humor, e ia atirando umas bocas aqui e ali. Ao menos isso. Passou junto da meta a correr. Todo aquele público a aplaudir e a gritar terá sido a energia suficiente para ele ir até ao fim, a tal energia que ele já não conseguia consumir em estado líquido ou sólido.

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Atrás de um grande atleta há sempre uma grande claque. Atrás de uma grande claque há sempre uma Super Bock. É esta a ordem natural das coisas.

Daquele local da meta, era ainda necessário percorrer um total de 10Km, 5Km para lá, 5Km para cá. Ali fomos, estrada fora, numa avenida junto à praia. E quando se pensava que nada podia piorar, Tau! WOW! Mas o que era aquilo? Pois bem, como o segmento da corrida estava a ser um passeio no campo, a organização da prova decidiu introduzir no final daquela avenida uma passagem pela praia, ao longo de 3Km, para refrescar as pernas. Fanáticos Do Pópó! “Segue que eu já vou ter contigo”, disse-lhe, enquanto arranjava forma de alguém ficar a tomar conta da minha bicicleta. Enquanto ele seguia pela praia, eu fui a correr em sentido inverso ao longo de um caminho de terra batida, para ir ao seu encontro. E enquanto seguia por ali, a cruzar-me com todos os que vinham em sentido contrário, a tentar correr ou a andar, cada vez ficava mais impressionado com o seu ar de esforço, de tortura.

Cheguei ao final desse caminho, segui ao lado do passadiço de acesso à praia e consegui vislumbrar, na pouca luz que ainda havia, a silhueta do sofredor. “Aqui acaba a areia. Acaba aqui”, gritei-lhe. Quer dizer, acabava a areia solta. Mas pronto, terra batida sempre era melhor que areia solta. Estava de novo ao seu lado, ora a caminhar, ora a correr devagar. Eu, ele e uma pequena lanterna da bicicleta que tinha levado comigo e que servia para vermos onde pisávamos. Naquele momento, onde ele já nem falava, o meu pensamento era este: “Caramba! O que deve estar a pensar uma pessoa que siga aqui, sozinha, no escuro e com o corpo a querer entrar em greve geral após mais de 12h de ultra exigência física?”. A preparação física é fundamental, mas a preparação mental para aqueles momentos será talvez ainda mais importante. Como é que essa se faz? Não faço ideia.

Depois desse trail e de mais uma paragem prolongada, onde eu gritei “Levanta-te! A meta é ali, não é aí onde estás!”, ele lá arranjou forças, começou a correr e assim foi até cortar a meta. Estava feito! Ao fim de 13:16:16, estava encontrado mais um Finisher!

O Balanço

Eu acompanhei o histórico de treinos dos meus amigos que ali estiveram presentes. Tenho noção do volume de horas que fizeram. Sei também as expectativas com que avançaram para esta prova, uns a dizer que faziam este ou aquele tempo. Durante o ciclismo vi que muitos estavam bem posicionados e tudo levava a crer que fariam uma prova a superar as próprias expectativas.

Mas de repente, Pum! Foi como se algo rebentasse. Como se tivessem levado uma cacetada do tal ‘gajo da marreta’. Houve quem desistisse aos 150Km do ciclismo porque a cabeça queria pedalar e as pernas, sem se perceber, recusavam-se a obedecer. Houve os que começaram a sentir a dureza da corrida, obrigados a caminhar quando a cabeça queria que fossem mais depressa. E nesses, houve os que sentiram forte e feio os efeitos de uma falha na hidratação ou alimentação, ou a reacção negativa a um produto não testado nos treinos.

Julgo que esta prova serviu para impor humildade em muitos espíritos competitivos, o suficiente para perceberem que, apesar das muitas horas de treino, são inúmeros os factores que podem levar alguém a desistir ou a passar um pesadelo para conseguir chegar ao fim. Um excesso de esforço num determinado ponto do ciclismo pode arruinar a corrida. Falhar um abastecimento, ainda para mais num dia de bastante calor, pode por o corpo a funcionar de forma defeituosa para o resto da prova. E ao fim de litradas de isotónico, mil e um gel e não sei quantas barritas, ingeridos durante o ciclismo, como ter a certeza que um estômago mais sensível será capaz de continuar a aceitar líquidos (sólidos já nem se tenta ingerir).

Eu vi muitos dos amigos a quebrarem. Todos eles melhores atletas que eu. Muito melhores. E depois de ter visto isso, confesso, a minha vontade de fazer uma prova na distância Ironman ficou praticamente anulada. Mas no meio de tanto sofrimento, surgiu o Deni. O grande Deni. Como é típico dele, o Deni sempre anunciou que ia ali na descontração. Que faria o ciclismo num ritmo de passeio, ali pelos 23Km/h e que faria a corrida devagarinho. E assim fez. Foi a pedalar num ritmo onde até conseguia tirar fotos aos que passavam. Quando chegou à corrida, foi devagar, e creio que nunca chegou a andar. O grande Deni, na sua humildade desportiva, mas capaz de enormes resultados, mostrou afinal uma excelente gestão do esforço. Ao fim de 12:47:00 cortou a meta e ficou em 287º, praticamente a meio da tabela. E se pensar no Deni, naquilo que fez, então talvez volte a ter vontade de tentar enfrentar um objectivo desportivo colossal. E é com o Deni e com esta foto que fecho este relato, uma foto que mostra que no meio de tanto sofrimento, há também enorme euforia e apoio dos que assistem. Um dia inesquecível.

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E neste ponto, de passagem junto à meta, o Deni ainda tinha de correr 10Km. Este é o espírito!

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9 respostas a Iberman, ou a linha que separa os triatletas

  1. Só posso dizer dizer uma palavra: COLOSSAL!

  2. Pedro sebastião diz:

    Grande crónica! Parabéns.

    PS: Eu também estive lá, assim… ao jeito do Deni… 😉

  3. joao rita diz:

    Magnifico, há momentos que venho aqui para me acalmar
    1 abraço

  4. LUIS VIEGAS diz:

    Eu estive lá acompanhar e senti a mesma sensação que tu uma coisa ver videos de Iroman e outra é ver cara na cara o sofrimento que eles têm(acompanhei o Nelson desde o inicio e cheguei a acreditar que ele poderia entrar no top ten depois de uma boa natação e bicicleta ter corrido bem até o furo quando aos 15 km comecei a vê-lo andar vomitar pensei este não chega lá como foi importante a prova ser porta de casa porque de contrário apoio moral não seria possivel).
    Se não tinha ilusão por fazer um Ironman depois de ter visto sofrer ainda menos até deixou-me com receio de fazer o Iberman de Maio.

  5. Lénia diz:

    Excelente relato, mais uma vez. Não pude estar presente, mas já contava contigo para viver um pouco das emoções desse dia. Obrigada!!!! Grande DENI (pensava que a foto era dele a chegar à meta!)!!!

  6. Anónimo diz:

    Tartaruguinhaaaaaaaaaaa Iron Man, Devagar Devagarinho, sp a coorrrer, na areia parecia uma lebre iolllll, tenho ke colocar as fotos ke tirei durante a bike e a corrida.iolll Adorei a prova p ano nao sei se faça mas daqui a dois anos vou de certeza YAHHHHHHH

  7. Anónimo diz:

    LUis viegas e Luis Santos, todo este esforço valeu a pena:) Excelente relato:) os meu sinceros parabéns ao Antunes:)

  8. Anónimo diz:

    Amigo, descreveste exactamente o que foi a aventura de quem la esteve. Excelente!
    grande abraço
    manel (dorsal 649)

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