De “Ma Ke Jeto, Mosso” a “Ma Ke Jeto, Mosso on Sports”, ou a razão de ser disto

Passar de um blogue onde se falava de tudo, para um blogue onde se fala apenas de desporto, triatlo em particular, é consequência da mudança de hábitos de vida do seu autor. Fica aqui a história que justifica isto, para dar a conhecer a todos os que só agora começaram a ler isto.

(Nota: esta história tem pontos comuns a muitas outras. Que se esclareça quem possa pensar que, muitos dos que participam nos grupos informais de corrida/marcha ou em corridas de competição, sempre foram atléticos e nada sedentários. Esta história é publicada com o objetivo de poder incentivar outros a procurar hábitos de vida mais saudáveis, tal como um dia eu decidi fazer e ainda não parei. Se eu mudei, qualquer um também é capaz de o fazer. Basta querer e não ceder perante as adversidades)
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Dissessem há 8 ou 10 anos, que eu um dia iria nadar, pedalar e correr, tudo de seguida, para achar que só podiam estar a gozar comigo. Ou então, que estavam a prever o impossível. Quando era miúdo ainda nadei algumas vezes, joguei à bola e brinquei o mais que pude. Mas com a faculdade fui caminhando rapidamente para a categoria de sedentário. Comecei a fumar por volta dos 25 e mantive esse péssimo hábito durante uns 15 anos, com uma dose diária a rondar os 40 cigarros.

Uma vez comprei uma bicicleta de BTT. As voltas grandes tinham uns 10km e ainda parava a meio para fumar um cigarro. Em Faro, enfrentava uma subida (que hoje mais parece uma simples rampa) onde tinha de parar 2 vezes para a conseguir transpor. A rotina diária somava trabalhar 8h sentado, andar de carro sempre que possível, comer muito e mal, e esperar pelo fim-de-semana para ir beber copos. Uma mistura explosiva que eu preferia ignorar. Tentativas para deixar de fumar houve várias. Mas nisto, quando não há mesmo vontade, tudo falha.

Por vezes achamos que podemos tentar correr, apenas porque reparamos nos que correm e achamos que têm pinta, que aquilo deve ser porreiro fazer. Mas corremos 300m, ou nem isso, e ficamos a pensar que vamos morrer da falta de ar ou da dor nos músculos. Uma experiência tão traumatizante que nos faz desistir de voltar a tentar nos meses seguintes.

Um dia tens de ser operado. Nesse dia, talvez já farto do vício, talvez já farto de não ter condição física, talvez já farto de todos os cigarros que sabiam mal, decides que é o momento ideal para dar o próximo passo. Mas não fazes planos nem promessas. Não fazes nada que tenhas feito antes. Acordas da anestesia e a primeira coisa que pensas é fumar um cigarro. Mas não fumas porque não podes. Passas mais uns dias no hospital e não fumas porque não podes. Voltas para casa e não fumas porque já estiveste uns dias sem fumar. E de cada vez que a vontade aperta – e se aperta, com vontade de gritar, de babar ou até bater em alguém – ganhas força e desistes desse cigarro. Do cigarro seguinte, logo se vê. Semanas passam a meses, meses passam a anos. E sem dar uma passa que seja, já lá vão 11 anos desde o tal último cigarro aceso.

Deixas de fumar e o peso aumenta. Muito. Esse peso soma-se ao excesso que já tinhas por teres optado ser sedentário durante a maior parte da tua vida. Um dia descobres que o teu IMC está em 30,1. Tu descobres que és um Obeso Tipo 1. Existe o patamar designado por “excesso de peso”, mas tu já estás acima disso. Porém, não é o número numa balança que te faz querer mudar. É uma foto. Uma foto tua em que tu ficas sem te reconhecer. Nesse dia decides que é hora de mudar. Vais a um nutricionista, alguém que te possa dar um empurrão, e começas a comer menos e melhor. Mas isso não chega. É muito difícil ou desmotivante perder peso e gordura apenas pela boca. Precisas queimar mais calorias. E para isso tens de começar a fazer exercício físico com regularidade. Repito, com re-gu-la-ri-da-de. Não é passar a semana sem fazer nada, chegar ao Domingo e fazer algo que te deixe de rastos e com vontade de comer um boi a seguir. É gastar calorias, se possível, com exercício diário.

Começas com caminhadas, cada vez mais vigorosas. Um dia tentas correr. Fazes os tais 300m, pensas que vais morrer mas, desta vez, voltas a tentar no dia seguinte. De cada vez que tentas verificas que consegues fazer sempre mais um pouco. Um dia fica eufórico ao descobrir que consegues correr 5km de seguida. Continuas a treinar e chegas aos 10km, de seguida. Uma meta que antes parecia impossível. E como as barreiras vão caindo, tentas uma meia maratona. E fazes. Loucura.

Neste processo de conquistas constantes, vês uma reportagem sobre a final do Ironman, em Kona, Havai, e achas aquilo fabuloso. Os tipos nadam, pedalam e correm distâncias enormes, tudo de seguida. Ficas curioso e tentas saber se no Algarve existe algum clube, alguém que te possa lançar na modalidade. Pesquisas na Net e tropeças numa entrevista a um tal de David Caldeirão, um atleta com um currículo desportivo invejável. Estabeleces contacto e és convidado a aparecer um dia nas piscinas de Loulé.

Nesse dia, apesar da sova que levaste a nadar, apesar de doerem músculos que parecia nunca terem sido usados, decides que é o que pretendes fazer nos próximos anos. Passo seguinte: comprar uma bicicleta. Aliás, somar capacete, sapatos de triatlo, Wetsuit (ou fato de borracha), Trisuit (ou fato de Lycra, justinho, que te faz sobressair todas as gorduras) e mais uns tantos acessórios que te dão cabo do orçamento na fase inicial.

Eu, que treinava corrida dia sim, dia não, tentava naquela altura encaixar treinos para três desportos. Além da força de vontade para treinar, é preciso conseguir conciliar os períodos de treino com a vida pessoal e os compromissos profissionais. Não é fácil.
No dia 16 de Setembro de 2011, ano e meio depois do início do processo de perda de peso e no dia em que completei 43 Primaveras, corri 10km sem parar. Em Novembro fiz as X Milhas do Guadiana. Em Dezembro completei a primeira Meia Maratona e parei uns dias por causa da primeira lesão. Em Março de 2012 fiz a minha estreia numa prova de triatlo, na distância Super Sprint (300m Natação + 8km Ciclismo + 2,5km Corrida). Em 2012 fiz mais 3 provas de triatlo na distância Sprint (750m Natação + 20km Ciclismo + 5km Corrida). Em Maio de 2013 fiz a estreia na distância Longa (1,8km Natação + 90km Ciclismo + 21km Corrida). Até à presente data houve mais provas de triatlo, outras de corrida, algumas lesões, mas sobretudo, muitas e muitas horas de treino.

Em Janeiro de 2010 tinha cerca de 100kg. Sete anos depois, o peso situa-se perto dos 77kg, sempre com o objetivo de baixar para 76kg, ou mesmo 75kg. Digamos que o joelho esquerdo, já operado ao menisco, agradece esse esforço e preocupação. Isto é apenas uma questão de estética? Não. Isto é sobretudo uma questão de saúde. Basta comparar vários valores das minhas análises, antes de 2009 com as atuais, para perceber que isto é acima de tudo uma questão de saúde. É isso que se obtém quando se eliminam vários fatores que são reconhecidos por aumentar, bastante, o risco de enfarte ou AVC, e se procura um estilo de vida mais saudável.

Apresenta2

Um dia lembrei-me de um evento no Facebook para combinar uma corrida noturna na praia do Barril. Foi a 8 de Agosto de 2013, numa sexta-feira de Lua Cheia de Lua Cheia. Nesse evento apareceram 10 Campeões. Soube tão bem que decidimos repetir na sexta-feira seguinte, num outro local. E na outra a seguir, assim como na outra depois dessa. Até hoje, sem interrupções.

O grupo que organiza esses eventos ficou conhecido como “Corridas à 6ª Feira” e já perdi a conta a todos os Campeões que marcaram presença num dos eventos. Há os que já apareceram e nunca mais vieram. Há os que marcam presença de forma muito esporádica. Há os fiéis, que tentam não falhar um que seja. Há os que só vão se for perto de casa. Há os que experimentaram e não se viciaram. Há os que acharam que só um grupo a fazer eventos de marcha/corrida no Algarve seria pouco e decidiram criar alternativas durante a semana.

Um grupo onde não há profissões, nem estatutos, nem classes. Todos se misturam e confundem à partida, partilhando apenas o mesmo objetivo: ser livre para escolher um dos percursos oferecidos e conseguir percorre-lo a correr, andar, ou ambos, pouco importando o tempo que se leva para chegar ao fim. Pelo meio fica a aventura, a descoberta das paisagens, dos cheiros e das sensações. No fim sobram os sorrisos em rostos por vezes cansados. Paira uma euforia geral da conquista obtida. Por terem corrido mais do que julgavam ser capazes. Por terem subido onde nunca pensaram chegar. Por perceberem que afinal são mais fortes e que ainda podem dar muito mais. Por terem desfrutado da companhia de outros que os incentivaram.

Um grupo onde os participantes, no que se pode chamar de “Uma Fantástica Aventura Desportiva Noturna”, são designados, com toda a justiça, como “Campeões”. Vencedores de desafios à 6ª Feira à noite.

Naquele que será sido, muito provavelmente, um dos melhores filmes de sempre, o “Blade Runner”, o Replicant, ao saber que o seu fim estava próximo, diz isto:

«I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser gate. All those moments will be lost in time… like tears in rain… Time to die».

Um diálogo que gosto de usar para enquadrar isto: Há o Luis Santos, fumador e sedentário, e o Luis Santos que procurou hábitos de vida mais saudáveis. Esse, por causa dessa mudança, já nadou ao nascer do sol com mais umas dezenas de tipos vestidos com fatos de borracha nas águas geladas do Guadiana, já nadou à volta do Oceanário, já pedalou por estradas e viu paisagens lindas onde nunca prestou atenção quando lá passou de carro, já atravessou a ponte 25 de Abril a correr, viu o por-do-sol no alto de um cerro quando fazia a prévia marcação de um percurso (rindo-se ao lembrar como isso seria um absurdo no passado), correu na praia sob a Lua Cheia, subiu a cerros e atravessou vales com um foco de luz na cabeça. Viu e viveu coisas que muitos nem fazem ideia… porque ficam no sofá.

Time to Run, Free!

 

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Esta entrada foi publicada em #Corridas6F, Algarve, Conquistas, Fumar, Gordura, IMC, Nutricionismo, Obesidade, Sem categoria, Triatlo. ligação permanente.

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