Artrose da Anca – A última corrida

Trail “Na Rota da Perdiz” – Martim Longo, 10.11.2019

E tudo começou assim

Foi a 10.11.2019 que fiz a minha primeira prova de Trail em modo competitivo. Uma semana antes do Trail de Barrancos, prova incluída na Taça Alengarve, que seria um dos meus objectivos desportivos para 2020.

Depois de terminar a prova e completar 18km a tentar descer o melhor possível, entenda-se, com ar de Cabra-montês e sem me espalhar ravina abaixo, eis que sinto dor forte do lado direito, zona do ventre. Assim coisa que até custava andar. Mas ao fim de dois dias já quase não sentia nada. Entretanto, carga de sinusite em cima, desconforto, tosse e nada de corrida ou treinos nessa semana.

Como havia inscrição para Barrancos e passeio de autocarro, com dormida em Moura, mesmo sem poder validar o meu estado físico para conseguir fazer uma prova de trail – uma prova dura, diziam alguns, e eu ia aos 24km, que entretanto já tinham passado para 27km ou coisa assim – decidi ir. Nem que fosse pelo passeio e convívio.

Parti, escalei o melhor possível para aquilo que o meu coração deixava e, tentava descer novamente com ar de cabra-montês para ver se os restantes não notavam que aquela não era, garantidamente, a minha praia. Ao fim de 14km, a meio da prova e num posto de abastecimento decidi desistir. Não tinha qualquer queixa muscular, nem notava aquela dor que tinha sentido uma semana antes, mas não havia condição física. Estava cansado e ainda faltava mais uma metade da prova, por sinal, a mais técnica. Nem pensar. Ficámos todos amigos e eu até saí dali a dizer que para o ano ia tirar a desforra.

Isto foi num Domingo e só na 4ª Feira seguinte consegui voltar a correr. Uma mísera corrida de 5min, porque entretanto começou a chover bem e, quem seguia comigo, acho que não havia necessidade de apanhar molha. Tudo bem, até ao dia seguinte. Ui! A tal dor no lado direito tinha voltado e andou ali a incomodar-me durante os dias seguintes. E por incómodo, entenda-se, coisa para fazer doer o testículo. Mau Maria!

Um Carrossel de dias sem treinar e outros a achar que a coisa estava melhor

17.11.2019, a última competição no Trail de Barrancos
Início de Dezembro com a primeira Ecografia ao lado direito da virilha, para despistar possível Hérnia
A corrida na Fuzeta, que me deixou mesmo fornicado da virilha, no lado esquerdo
Vamos esquecer a Corrida, o Ciclismo, a Natação, vamos esquecer quase tudo e fazer mais ecografias
9.1.2020, aquela que, provavelmente, terá sido a última corrida

De Dezembro a Janeiro, os factos

A 25 de Novembro, depois das queixas na virilha no lado direito, fiz ecografia após consulta no fisioterapeuta. O resultado deu negativo para Hérnia (menos mal, pensava eu).

Em Dezembro foi o descalabro. Se havia queixas que me faziam evitar certos treinos, somavam-se umas crises de sinusite que me tiravam qualquer vontade de treinar. Aquela coisa chamada “Forma” era algo que terá ficado pelo caminho. Cada regresso, cada retorno, era cada vez mais custoso.

A 20 de Dezembro lá corri uns 4,5km. Nessa altura, ficou um desconforto na zona do ventre. Um incómodo a mostrar que a coisa não estava bem, ou recuperada (pensava eu).

Neste período, a dor mais forte na virilha, lado direito, desapareceu. Mas terá sido no final de Dezembro, quando achei que podia fazer uns treinos tipo “Brick”, com corrida logo após o ciclismo, que começou a surgir dor no lado esquerdo da virilha.

A 3 de Janeiro, julgava eu que isto seria uma coisa muscular, tendinite ou outra “ite” qualquer, achei que dava para correr 10km. Terei feito grande parte da corrida a 4:50min/km, a sentir-me … bem (tirando o pulso mais alto que o desejado, por causa da falta de treinos). Mas quando termino … Ai Mãe! A dor na virilha, lado esquerdo, tinha acordado, estava furiosa, irritada, e lembrava-me que era melhor ir ver aquilo.

E assim, mais um rico mês de Janeiro, com paragens nos treinos e a esperança que tudo ainda fosse ao sítio. Nesse período, fiz ecografias ao lado esquerdo da virilha, as quais deram negativo para Hérnias (menos mal, pensava eu).

Por fim, a 8 Fevereiro, faço uma corrida em local plano, ritmo lento, a pensar que algumas das poucas queixas não iam piorar. Pioraram. Tanto que nessa tarde doía-me o lado esquerdo da anca em vários sítios, Oops!

O Ortopedista e a Artrose

Fui ao ortopedista dois dias depois daquela corrida massacrante, ainda a pensar que poderia ser uma pubalgia ou uma “ite” qualquer que fosse ao lugar com fisioterapia.

Fiz RX à anca na consulta, o médico olhou para aquilo e disse, de forma seca, como costumam dizer os ortopedistas na sua forma directa, vá, um pouco bruta:

“Você tem a anca lixada do lado esquerdo … e a direita não está muito melhor”

Ó caraças! E sem alongar o assunto

“Vá nadar, pedalar … mas esqueça a corrida”

Artrose da Anca / Coxartrose

Sem mais rodeios e de forma clara e objectiva:

O que é: A artrose da anca corresponde a um desgaste da articulação da anca, com perda progressiva da cartilagem.

Sintomas: Na artrose da anca (coxartrose), as dores, que se localizam quase sempre a nível da virilha e irradiam pela face anterior da coxa até ao joelho, podem surgir exclusivamente ao nível desta última articulação. Isto é, o doente tem dores no joelho e a artrose localiza-se na anca.

Consequências: Ao longo do processo, a cartilagem fica desgastada, cada vez mais fina e, aos poucos, mais destruída. Como ela é essencial para o movimento da articulação, a dor vai-se acentuando e os movimentos vão ficando cada vez mais comprometidos. A dor impede a mobilidade, pelo que surge atrofia dos músculos. A articulação fica instável, agravando as lesões. No final, a articulação fica incapaz de exercer a sua função, sem cartilagem e com o osso desenvolvido na periferia. Os doentes ficam cada vez mais limitados, até ao ponto de não conseguirem mover a articulação sem um grande esforço e fortes dores.

Tratamento: A osteoartrose não tem cura. Na fase inicial podem ser prescritos analgésicos e anti-inflamatórios que, em conjunto com um plano adequado de fisioterapia, permitem o alívio da dor e melhoria da função articular, apesar de não tratarem a artrose. Nos casos de falência do tratamento conservador está indicada a Artroplastia da Anca ou substituição articular por uma prótese.

O Ma Ke Jeto Mosso, On Sports

Este é um blogue escrito por um ex-fumador (2 maços por dia durante 20 anos), ex-obeso (IMC 30) e ex-sedentário. Alguém que um dia decidiu procurar hábitos de vida mais saudáveis. Para isso, começou a correr e adicionou a natação e o ciclismo. Começou a fazer triatlo. Fez provas curtas e outras mais longas e desgastantes. Fez coisas que não julgava que pudesse fazer anos antes. Conseguiu resultados que não acreditava serem possíveis, como subir a um pódio. Julgava que podia continuar a fazer tudo isso por muitos mais anos. Não se arrependeu de fazer nada do que fez, da forma que fez ou da quantidade que fez.

Está identificado um problema de artrose na anca, um processo degenerativo que não se cura com fisioterapia ou medicamentos. Um processo que poderá ser abrandado, mas nunca travado. A solução final, que se deve adiar até onde for possível ou recomendável, passa por substituir as “peças” defeituosas.

Assim, perante o diagnóstico e ciente de todas as possibilidades, não me é difícil tomar decisões ou perceber aquilo que posso fazer e aquilo que tenho de deixar de fazer.

Correr, claro, será para terminar. Não faz sentido, não é lógico, nem há qualquer ganho se insistir na corrida. Mesmo que tome anti-inflamatórios e as queixas desapareçam, não faz qualquer sentido insistir num desporto que poderá causar nova inflamação e que, garantidamente, só contribuirá para a aceleração do processo degenerativo.

E não faz sentido acelerar um processo que passa por substituir osso por próteses, mesmo que depois disso, passem as dores ou queixas. Assim como, muito menos sentido faz poder-se pensar em voltar a correr com uma prótese. Mais, é comum, após aplicação de uma prótese, que o lado oposto sofra com essa transformação/compensação, acabando também por necessitar de prótese.

É isto.

Irá haver, sempre que possível, natação ciclismo, reforço muscular, Pilates e aquilo que não contribua para a aceleração desta artrose.

O triatlo, porque tem o inconveniente de incluir corrida, fica afastado.

O Ma Ke Jeto Mosso, On Sports, sempre que me for possível ou justificável, continuará a ter conteúdos novos para os poucos que ainda possam aqui vir ler.

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5 respostas a Artrose da Anca – A última corrida

  1. Anónimo diz:

    Eu leio, com gosto. Acompanhei desde o início. Na verdade, como deixa de escrever, até me esqueço que existe, até escrever de novo! As melhoras, um abraço e vá aparecendo…

  2. Sérgio Sousa diz:

    Força Luís.
    Creio que não podermos dar totalmente as culpas à corrida.
    Conheço pessoas que não corriam e já tiveram que ser operadas às duas ancas.

  3. Nelson Lourenço diz:

    Luís, é com enorme mágoa que leio este teu depoimento. Tenho profunda admiração por ti e todas as palavras que vier a tentar escrever para te reconfortar serão infrutíferas. Sem o que representa estar incapacitado para a prática de algo que gostamos, neste caso um desporto.
    Nunca esquecerei o dia em que aceitaste o meu “desafio” e foste correr comigo em Loulé.
    Pergunto-me se todos nós que corremos (como é o meu caso), não estaremos a exigir saúde ao nosso corpo, em vez de lhe dar saúde? Afinal de contas, e pese embora toda a literatura que se leia, todos os treinos, posturas e recuperações que cientificamente que se siga, somos meros amadores! Para além disso, estamos permanentemente e envelhecer, e teu problema irá afectar quase todos nós (na anca ou em outro local) a partir de algum momento da vida.

    Um abraço Luís.

  4. Pingback: Treinos 2020 vs 2019 | Ma Ke Jeto, Mosso on Sports

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